Jorge Pedro Sousa1
Universidade Fernando Pessoa
Resumo
Os teóricos do jornalismo têm-se dividido em dois campos quanto à edificação de uma teoria unificada do jornalismo. Para autores como Traquina (2002) ou Viseu (2003), ainda não é possível formular uma teoria do jornalismo; para outros autores, como Shomaker e Reese (1992) e Sousa (2002), já existe conhecimento suficiente sobre o jornalismo para se edificar uma teoria do jornalismo. O autor apresenta, aqui, o seu contributo para a construção de uma teoria unificada do campo jornalístico. O modelo proposto assenta em duas equações interligadas, a primeira das quais visa as notícias e a segunda os seus efeitos. Na primeira fórmula, a notícia é vista como uma função de seis forças (pessoal, social, ideológica, cultural, histórica e do meio físico e tecnológica); na segunda, os efeitos das notícias são vistos como uma função da notícia, das pessoas e das suas circunstâncias.
À semelhança das ciências exactas e naturais, as ciências humanas e sociais devem procurar agregar os dados dispersos fornecidos pela pesquisa em teorias integradoras susceptíveis de explicar determinados fenómenos com base em leis gerais predictivas, mesmo que probabilísticas. As ciências da comunicação devem, assim, ultrapassar a sua condição de "disciplinas sérias", como lhes chamou Debray2, para assumir a sua cientificidade, como pretendia Moles (1972). Isto implica avançar para a enunciação de teorias sempre que os pesquisadores considerem que existem dados científicos e evidência suficientes. No campo do jornalismo, essa opção tem sido seguida por pesquisadores como Shomaker e Reese (1992), Sousa (2000; 2002) e mesmo Schudson (1988), contando, porém, com a oposição de autores como Traquina (2002) ou Viseu (2003).
Uma teoria do jornalismo deve partir da observação de que há notícias jornalísticas3 e de que estas têm efeitos. Em resultado desta evidência, uma teoria do jornalismo deve centrar-se no produto jornalístico -a notícia jornalística, explicando como surge, como se difunde e quais os efeitos que gera. Em suma, a teoria do jornalismo deve substancializar-se como uma teoria da notícia e responder a duas questões:
Uma teoria da notícia, à semelhança de outras teorias científicas, deve ser enunciada de maneira breve e clara, deve ser universal, deve ser traduzível matematicamente e deve ainda ser predictiva. Deve atentar no que une e é constante e não no que é acidental. Isto significa que o enunciado da teoria deve ser contido, explícito e aplicável a toda e qualquer notícia que se tenha feito ou venha a fazer. Uma teoria da notícia, como qualquer teoria científica, será válida unicamente enquanto não ocorrerem fenómenos que a contradigam, pois o conhecimento científico, que é construído, como qualquer outro tipo de conhecimento, é marcado pela possibilidade de refutação e, portanto, pela revisibilidade.
Os resultados das pesquisas realizadas no campo dos estudos jornalísticos (ver, por exemplo, Sousa, 2002; Shoemaker e Reese, 1996; Schudson, 1988) permitem percepcionar que (1) a notícia jornalística é o produto da interacção histórica e presente (sincrética) de forças pessoais, sociais (organizacionais e extra-organizacionais), ideológicas, culturais, históricas e do meio físico e dos dispositivos tecnológicos que intervêm na sua produção e através dos quais são difundidas; e (2) que as notícias têm efeitos cognitivos, afectivos e comportamentais sobre as pessoas e, através delas, sobre as sociedades, as culturas e as civilizações.
Matematicamente, a teoria pode traduzir-se por duas funções
interligadas num sistema:
N = f (Fp.Fso.Fseo.Fi.Fc.Fh.Fmf.Fdt)
En = f (Nf.Nc.P.Cm.Cf.Cs.Ci.Cc.Ch)
A primeira equação do sistema mostra que a notícia (N) é função de várias forças, a saber:
As notícias resultam parcialmente das pessoas e das suas intenções, da capacidade pessoal dos seus autores e dos actores que nela e sobre ela intervêm.
As notícias são fruto das dinâmicas e dos constrangimentos do sistema social (força social extra-organizacional - Fseo) e do meio organizacional em que foram construídas e fabricadas (força sócio-organizacional - Fso).
As notícias são originadas por conjuntos de ideias que moldam processos sociais, proporcionam referentes comuns e dão coesão aos grupos, normalmente em função de interesses, mesmo quando esses interesses não são conscientes e assumidos.
As notícias são um produto do sistema cultural em que são produzidas, que condiciona quer as perspectivas que se têm do mundo quer a significação que se atribui a esse mesmo mundo (mundividência).
As notícias dependem do meio físico em que são fabricadas.
As notícias dependem dos dispositivos tecnológicos usados no seu processo de fabrico e difusão.
As notícias são um produto da história, durante a qual agiram as restantes forças que enformam as notícias que existem no presente. A história proporciona os formatos, as maneiras de narrar e descrever, os meios de produção e difusão, etc.; o presente fornece o referente que sustenta o conteúdo e as circunstâncias actuais de produção. Ao ser simultaneamente histórica e presente, a notícia é sincrética.
Num esquema gráfico, a primeira equação poderia ser traduzida da seguinte maneira:
Fig. 1 - As notícias são a resultante de um processo
sincrético, ou seja, histórico e presente, no qual interagiram e
interagem várias forças: pessoal, social (organizacional e
extra-organizacional), ideológica, cultural, histórica e do meio
físico e tecnológico.
A segunda equação do sistema evidencia que os efeitos de uma notícia (Enoki variam em função das seguintes variáveis:
Os efeitos de uma notícia dependem da própria notícia. Atendendo a que cada notícia tem um formato e um conteúdo, influenciando ambos o processo de percepção, recepção e integração, então a variável notícia deve segmentar-se em duas variáveis, o formato da notícia (Nf) e o conteúdo da notícia (Nc).
Os efeitos de uma notícia dependem da pessoa que a consome, da capacidade perceptiva dos seus sentidos, da sua estrutura mental, da sua personalidade, da sua experiência, da sua mundivivência, da sua mundividência, etc.
Os efeitos da notícia dependem das circunstâncias (C) da pessoa que a recebe. As circunstâncias que rodeiam a pessoa respeitam ao meio em que a notícia é difundida (Cm), às condições físicas da recepção (Cf), à sociedade (Cs), à ideologia (Ci), à cultura (Cc) e à própria história (Ch).
Os resultados das pesquisas que têm vindo a ser produzidas sobre o campo jornalístico, nas quais se recorre a métodos como a análise do discurso, a observação participante, as entrevistas, os inquéritos e os grupos de foco permitem alicerçar o modelo teórico aqui sumariamente apresentado4.
No que respeita à primeira equação, podemos considerar, por exemplo, o papel individual do jornalista como gatekeeper (White, 1950), a utilização de rotinas cognitivas (Stocking e Gross, 1989) ou a auto-imagem que o jornalista tem de si e do seu papel social (Johnstone, Slawski e Bowman, 1972) como exemplos de forças pessoais. As rotinas produtivas, destacadas por Tuchman (1972; 1978) situam-se a meio caminho entre a força pessoal e a força social, pois correspondem a formas mecanicistas pessoais de proceder, embora esses mecanicismos representem, igualmente, uma maneira de os jornalistas se defenderem de críticas e de as organizações noticiosas fazerem estrategicamente face ao imprevisto e conseguirem garantir que o produto informativo se faz (Tuchman, 1972; 1978). Do mesmo modo, o factor tempo pode considerar-se a meio caminho entre as forças pessoais e sociais, já que afecta os produtores de informação e as fontes mas ganha expressão no seio da organizacional, onde se manifesta como um constrangimento à produção de informação.
A força social pode situar-se em diferentes níveis: uma força sócio-organizacional (que se refere aos constrangimentos decorrentes das organizações noticiosas) e uma força social extra-organizacional (referente a todos os constrangimentos que influenciam o jornalismo a partir do exterior). Ao nível organizacional, as notícias são influenciadas por factores como a rede que estendem para pescar acontecimentos dignos de se tornarem notícia (Tuchman, 1978), o desejo de lucro (Gaunt, 1990), os mecanismos de socialização que impelem os jornalistas a seguir as normas organizacionais (Breed, 1955), a competição entre editores e editorias (Sigal, 1973), os recursos humanos e materiais (Sousa, 1997), a hierarquia e a organização internas (Sousa, 1997), a dimensão e a burocracia interna (Shoemaker e Reese, 1996), os constrangimentos temporais (Schlesinger, 1977), a interacção com as fontes de informação, etc. Ao nível extra-organizacional, as notícias são influenciadas por factores como a audiência e o mercado (Gaunt, 1990; Kerwin, 1993), as relações (problemáticas) estabelecidas entre jornalistas e fontes de informação, com prevalência dos canais de rotina5 (Sigal, 1973, etc.), etc.
A notícia também sofre constrangimentos ideológicos (força ideológica). Considerando-se a ideologia como um mecanismo simbólico que, integrando um sistema de ideias, cimenta a coesão e integração de um grupo social em função de interesses, conscientes ou não conscientes (a cultura também cimenta coesões, mas não em função de interesses), a força ideológica sobre as notícias exerce-se a vários níveis, começando pelas ideologias profissionais da objectividade e do profissionalismo (Sousa, 2000; 2002). As notícias também tendem a possuir um conteúdo ideológico que decorre, sobretudo, das práticas profissionais. Neste caso, as notícias podem ser um produto para a amplificação dos poderes dominantes, para a definição do legítimo e do ilegítimo, do normal e do anormal e para a sustentação do statu quo (Hall, 1973; 1978; Shoemaker e Reese, 1996, etc.), mas sem excluir que há espaços polifónicos no jornalismo.
As notícias também variam em função do sistema cultural em que são produzidas. Por exemplo, as notícias transportam consigo os ``enquadramentos'' (frames) em que foram produzidas (Traquina, 1988; Schudson, 1988), são construídas no seio de uma gramática da cultura que as leva a representar a realidade repetindo formatos culturalmente aprendidos (Nimmo e Combs, 1983; Schudson, 1988), mobilizam um inventário do discurso (Hall, 1984), ou seja, são escritas em "jornalês" (Phillips, 1976), tendem a integrar os mitos, as parábolas, as lendas e as histórias mais proeminentes numa determinada cultura (Shoemaker e Reese, 1996), etc. Em suma, as notícias possuem códigos simbólicos, culturais, que permitem o seu reconhecimento pela audiência (Bird e Dardenne, 1988).
Não há muitos estudos sobre a influência do meio físico e dos dispositivos tecnológicos sobre o trabalho jornalístico. De qualquer modo, e no que respeita ao meio físico, é quase intuitivo dizer-se que um jornalista pode produzir mais e melhor num local apropriado ao seu trabalho do que num escritório inadequado e desconfortável; ou que o trabalho em situações limite, como as guerras, influencia a cobertura. A acção dos dispositivos tecnológicos também é evidente no jornalismo. Basta relembrar as mudanças operadas com a introdução de computadores nas redacções, com a inserção de máquinas fotográficas e videográficas em telemóveis celulares, com o videofone, com a Internet, etc.
Finalmente, para se fundamentar a primeira equação do modelo matematizado proposto há que atentar na força histórica. Alguns exemplos: as notícias repetem formatos ancestrais de narração, como aqueles que eram usados nas antigas Grécia e Roma (Casasús e Ladevéze, 1991). O conceito de actualidade ganhou novas dimensões a partir da introdução do telégrafo (Álvarez, 1992). Ao longo dos anos tem-se também assistido ao alargamento do conjunto de temas noticiáveis, devido, entre outras razões, à evolução dos frames culturais (Álvarez, 1992). Noutro exemplo, foi a evolução histórica da tecnologia (força tecnológica ao longo da história) que providenciou ao jornalismo novas tecnologias para a produção e difusão de notícias (Martín Aguado e Armentia Vizuete, 1995).
Vários autores chamam a atenção para a necessidade de se interligarem as notícias aos seus efeitos numa teoria do jornalismo. Por exemplo, Shoemaker e Reese (1991; 1996) argumentam que é necessário conhecer os conteúdos das notícias para se perceberem os respectivos efeitos; e que só se percebem os efeitos quando se conhecem os conteúdos. Por outras palavras, pode dizer-se que a notícia apenas se esgota na sua fase de consumo, que é, precisamente, a fase em que produz efeitos. Além disso, Shoemaker e Reese (1991; 1996) realçam que os efeitos das notícias sobre a sociedade, as instituições e os poderes podem, por sua vez, repercutir-se retroactivamente sobre os meios jornalísticos e, portanto, sobre as notícias e os seus conteúdos.
Sousa (2002; 2003) explica, por seu turno, que as notícias influenciam a sociedade e as pessoas, a cultura e as civilizações, mas também a sociedade, as pessoas, a cultura e as civilizações influenciam as notícias. As notícias fazem parte da realidade, contribuem para a construção de imagens da realidade, agendam temáticas de debate público, etc. A realidade, nomeadamente a agenda pública, funciona como referente das notícias.
Os efeitos de uma notícia dependem dessa mesma notícia e da pessoa que a consome (ver, por exemplo: Sousa, 2002; Sousa, 2003). As pessoas nem sempre apreendem as mesmas notícias e quando o fazem não o fazem da mesma maneira. Por isso, antes de se pensar em efeitos sociais, ideológicos, culturais e civilizacionais das notícias é preciso atentar nos seus efeitos sobre as pessoas. Os efeitos sociais, culturais e civilizacionais das notícias correspondem a uma espécie de alargamento do leque de abrangência dos efeitos pessoais, ou seja, assentam e partem dos efeitos pessoais.
As notícias apresentam um formato e um conteúdo. O formato corresponde à forma com que o conteúdo se apresenta. O formato das notícias condiciona a atenção e, portanto, a percepção e a apreensão de uma notícia. O conteúdo contribui para o desencadeamento de efeitos afectivos, cognitivos ou comportamentais (Ball-Rokeach e DeFleur, 1976) em cada pessoa. Mas os meios de comunicação influenciam muitas pessoas em simultâneo, daí que os efeitos das notícias, embora radiquem primariamente em cada pessoa, devam ser considerados prioritariamente a nível social, ideológico, cultural e civilizacional.
Os efeitos das notícias variam em função das pessoas porque as pessoas são diferentes entre si e vivem rodeadas de diferentes circunstâncias. Isto não significa que não haja circunstâncias comuns a várias pessoas ou que algumas pessoas não apresentem suficientes semelhanças entre si para os efeitos dos meios serem semelhantes, sobretudo quando se pensa em efeitos a grande escala. Significa apenas que antes de se atentar nos efeitos a grande escala é preciso observar os efeitos sobre cada pessoa, porque, em última instância, cada caso é um caso.
As circunstâncias que afectam a recepção de uma notícia, e, portanto, os seus efeitos, são diversos. Em primeiro lugar, pode-se atentar nas circunstâncias mediáticas. Os efeitos de uma notícia variam em função do meio. É diferente consumir uma notícia na rádio, onde a mensagem oral, para ser compreensível, tem necessariamente que ser breve, uma notícia na televisão, onde se pode aliar a imagem em movimento ao texto-off, uma notícia na imprensa, que pode ser mais aprofundada e incluir imagens fixas, e uma notícia na Internet, onde o consumidor pró-activo pode traçar o seu próprio caminho na busca de informação.
Seguidamente, deve atentar-se em todo o conjunto de macro-circunstâncias que rodeiam uma pessoa. Num determinado momento histórico, os valores, as normas, as crenças, as relações sociais estabelecidas, as ideias referenciais, o sentido que a realidade assume para as pessoas afectam o efeito das notícias. Por isso, os efeitos das notícias dependem de todo o vasto conjunto de circunstâncias sociais, ideológicas e culturais que rodeiam o consumidor das mesmas (ver, por exemplo: Sousa, 2002; 2003).
As notícias, podendo indiciar a realidade que referem, também indiciam as suas circunstâncias de produção, reveladas nas numerosas pesquisas que constituem o corpo da teoria do jornalismo. Esse mecanismo torna possível identificar nas notícias os resultados das forças que sobre elas se fazem sentir, impulsionando, direccionando e constrangendo a sua produção. Nos exemplos a seguir inseridos é possível identificar algumas dessas forças. No primeiro caso temos uma notícia de 1864 (extraída do primeiro número do Diário de Notícias) e no segundo caso uma notícia da viragem do século XX para o século XXI (alterada para protecção dos visados).
Notícia 1 Suas Magestades e Altezas passam sem novidade em suas importantes saúdes.
Notícia 2 O Presidente da República vai ser submetido a uma pequena cirurgia cardiovascular no próximo mês, anunciou a Presidência da República.
A Presidência da República esclarece que o Presidente se encontra bem de saúde e que a cirurgia, embora delicada, é comum.
A operação obrigará o Presidente a uma semana de internamento e ao cancelamento dos seus compromissos oficiais.
A cirurgia será feita no Hospital X, em Lisboa, pela equipa do professor Y, que nos últimos cinco anos operou mais de 250 doentes, com uma taxa de sucesso de quase cem por cento.6
O que ambas as notícias nos revelam sobre si mesmas e sobre as circunstâncias e o contexto em que foram produzidas? Para responder a esta questão, procede-se à análise, com base no modelo de Sousa (2002), das forças que as notícias indiciam, partindo de um cenário macroscópico.
- A primeira notícia é uma notícia de um não-acontecimento. Justifica-se porque foi publicada num contexto de pobreza informativa7 que obrigava a imprensa noticiosa nascente8 a aproveitar tudo o que se parecesse com uma novidade interessante para encher o espaço editorial. A segunda notícia é uma notícia de um verdadeiro acontecimento (a doença do Presidente da República obriga a uma intervenção cirúrgica) metamorfoseado num acontecimento de rotina (a assessora de comunicação da Presidência encarrega-se de promover o acontecimento à categoria de notícia9 e os órgãos de comunicação social aproveitam-na não só devido ao seu interesse noticioso mas também porque, rotineiramente, publicam as informações oriundas dos principais órgãos do Estado).
- As notícias referem-se ao estado de saúde dos máximos representantes do país. Os factos a que elas se referem apenas se tornaram notícias porque determinados enquadramentos (ou frames) culturais10 os permitem ver como factos notáveis e dignos de se tornarem notícias. Explica Schudson (1988: 20) que numa determinada sociedade só existe um número limitado de notícias, porque só determinados factos é que se inserem dentro dos limites do que é concebível como notícia. Por isso, "As novidades são comprimidas em velhos ficheiros" (Schudson, 1988: 24). O estado de saúde dos governantes de Portugal é um desses velhos ficheiros sempre recuperáveis, porque corresponde à forma da sociedade portuguesa ver o mundo e também porque, no contexto social e político português, é relevante que os cidadãos conheçam o estado de saúde de quem os governa.
Os enquadramentos, complementados com constrangimentos de outra ordem, como a política editorial das empresas jornalísticas, estão na base dos critérios de noticiabilidade, ou seja, dos critérios susceptíveis de transformar acontecimentos em notícias. Neste caso, a referência a figuras de elite funciona como um critério de noticiabilidade em ambas as notícias. Trata-se de um critério de noticiabilidade perene, um critério que já promovia factos a notícias nos tempos das Actae Diurnae11 e que provavelmente continuará a regular a transformação de acontecimentos em notícias enquanto a sociedade mantiver uma estrutura sócio-política que impõe a existência de líderes e liderados.
A referência a personalidades de elite não é o único critério de noticiabilidade que impulsionou a publicação das notícias. Baseando-nos na lista de critérios de noticiabilidade pela primeira vez proposta por Galtung e Ruge (1965), é possível identificar outros critérios que permitiram aos jornalistas e responsáveis editoriais enquadrar os factos relatados na categoria de notícias, como sejam o momento (ambas as notícias eram actuais quando foram difundidas), a proximidade (ambas as notícias dizem respeito a temas que interessam sobretudo aos portugueses), a personalização (ambas as notícias dizem respeito a pessoas), a negatividade (apenas na segunda notícia) e ainda a inexistência de dúvidas sobre os factos que relatam.
- Ambas as notícias só puderam ser publicamente difundidas porque Portugal goza e gozava de liberdade de imprensa, princípio caro às democracias liberais e que baseia o Modelo Ocidental de jornalismo (McQuail, 1991; Hachten, 1996), sendo também um valor agregador dos jornalistas. As notícias seriam impensáveis em países comunistas como a Coreia do Norte, o Vietname ou a China, já que o secretismo isola do escrutínio público os dirigentes máximos desses países, em alguns casos quase sacralizados (como acontece na Coreia do Norte).
- Em ambas as notícias o relato é dominantemente factual, evidenciando que o culto dos factos não é novo no jornalismo (Traquina, 1993: 23) e em ambas o núcleo duro da informação surge no parágrafo inicial (lead). Aliás, a primeira notícia resume-se ao lead, embora a segunda esteja redigida com base na técnica da pirâmide invertida. Esta forma de organização do discurso não é nova. O jornalismo reinventou-a a partir de meados do século XIX12 -segundo Philips (1976), os jornalistas escrevem em "jornalês- e as agências noticiosas e os jornais aproveitaram-na e generalizaram-na, mas, na realidade, contar-se uma novidade começando pelo facto mais importante e prosseguindo hierárquica e sistematicamente até ao menos importante não é uma maneira nova de narrar. Pelo contrário, já se encontram exemplos nos textos clássicos gregos e romanos (Casasús e Ladevéze, 1991). As notícias são, assim, histórias narradas à luz da cultura da sociedade em que são produzidas (Schudson, 1988) e da cultura profissional (Traquina, 2001; 2002).
- Também a organização interna do discurso não é nova. As notícias respondem a "quem?", "o quê?", "como?", "quando?" e "onde?", embora na primeira notícia as respostas a "quando?" e "onde?" sejam implícitas (onde?, em Portugal; quando?, neste momento). A segunda notícia responde ainda a "porquê?". Não foi o jornalismo que deu ao mundo esta forma de relatar novidades. Foram os antigos gregos, senão mesmo antepassados mais remotos. Na verdade, a retórica clássica manda que no relato de novidades se indiquem o sujeito, o objecto, a causa, a maneira, o lugar e o tempo. O que é esta regra senão a regra de ouro da notícia, que manda o jornalista não se esquecer de responder às seis questões fundamentais: "quem?", "o quê?", "quando?", "onde?", "como?" e "porquê?"? O formato noticioso, como muito bem salienta Schudson (1982), impõe a forma das declarações: "o poder dos media não está só (nem principalmente) no seu poder de declarar as coisas como sendo verdadeiras, mas no seu poder de fornecer as formas sob as quais as declarações aparecem".
- Ambas as notícias encerram uma intenção de verdade. Procuram não mentir nem ficcionar sobre a realidade. Esta intenção discursiva não ficcional é um dos reflexos da ideologia da objectividade, cultivada pelos jornalistas para se relegitimarem continuamente no seio do sistema demo-liberal (Sousa, 1997) e revela-se em procedimentos rituais de objectividade (Tuchman, 1972) visíveis nas notícias, em particular na segunda notícia: a facticidade; as citações entre aspas; o endossamento da responsabilidade pelas afirmações às fontes que as enunciaram, etc.
- Ao darem atenção aos líderes políticos do país e ao concederem-lhes rotineiramente espaço, as notícias não só indiciam a organização sócio-política da sociedade portuguesa como também contribuem para relegitimar essa estrutura (Sousa, 1997; 2000; 2002). Esta é uma acção ideológica, mesmo que não intencional.
- Ambas as notícias centram-se em acontecimentos actuais, superficiais, aparentemente delimitados no espaço e no tempo (no primeiro caso centra-se até num "não-acontecimento") e não em problemáticas dissimuladas na avassaladora paisagem dos factos e muito menos em problemáticas antigas. A centralização nos acontecimentos, nos factos, e não nas problemáticas serve como uma luva ao jornalismo. Como escreve Traquina (1988: 37), "os acontecimentos são concretos, delimitados no tempo e mais facilmente observáveis". E Tuchman (1978) explica que essa centralização nos acontecimentos permite transformá-los rapidamente em notícias, pois torna-se fácil a resposta às questões que fazem o lead noticioso. Por seu turno, a centralização na actualidade permite às organizações noticiosas gerirem melhor os seus recursos e dá resposta aos interesses da audiência (ou seja, do mercado), que quer, principalmente, saber "o que há de novo?". Daí que o jornalista seja um escravo do tempo, regule a sua acção pelas deadlines e pelo ponteiro do relógio, tendo aquilo que poderíamos traduzir por uma "cronomentalidade", aproveitando a noção de Schlesinger (1977).
- Ambas as notícias são factuais. Não há comentários, apesar da breve adjectivação interpretativa patente na primeira notícia. É uma opção que reflecte a política editorial das organizações noticiosas no seio das quais ambas as notícias foram produzidas, um dos constrangimentos organizacionais mais relevados nos estudos jornalísticos (ver, por exemplo: Sousa, 2000; 2002).
- Ambas as notícias denunciam rotinas segundo as quais os chefes de Estado portugueses são dignos de serem notícia. Ambas as notícias denotam ainda procedimentos rotineiros (a técnica da pirâmide invertida e os procedimentos rotineiros de objectivização do discurso, particularmente notórios na segunda notícia, são um bom exemplo). As rotinas são, conforme explicou Tuchman (1978), uma forma de dar às organizações noticiosas e aos jornalistas vantagens tácticas e estratégicas quer no que respeita à necessidade de preencherem com informação um espaço e um tempo vazios quer no que respeita à necessidade de se defenderem de críticas. Assim, é num contexto organizacional que as rotinas mais ganham expressão, como dissemos. A técnica da pirâmide invertida e os procedimentos de objectivização do discurso são exemplos de rotinas enunciativas que possibilitam aos jornalistas e às organizações noticiosas vencerem o tempo e transformarem rapidamente acontecimentos em notícias publicáveis e dificilmente sujeitas a críticas.
- Devido às particulares necessidades do fabrico de informação jornalística, o jornalismo é permeável à acção de fontes de informação regulares, autorizadas, poderosas e credíveis, que beneficiam de um acesso rotineiro aos meios jornalísticos. São muitos os estudos jornalísticos que demonstram essa situação (ver, por exemplo: Sousa, 2000; 2002; Shoemaker e Reese, 1996). A segunda notícia, baseada, muito provavelmente, (quase?) toda ela nas informações fornecidas pela Presidência da República, é um sintoma da situação atrás descrita.
- A rede de captura de acontecimentos (a news net, segundoTuchman, 1978) das organizações noticiosas funcionou para a recolha de ambas as notícias. Hipoteticamente a primeira notícia é o resultado da iniciativa dos jornalistas (provém de um canal de iniciativa, na formulação de Sigal, 1973); a segunda notícia revela o acesso socialmente estratificado e rotineiro aos órgãos jornalísticos (é oriunda de um canal de rotina, de acordo com Sigal, 1973). Mas ambas as notícias revelam que as organizações noticiosas mobilizaram recursos para estarem atentas àquilo que se passava nas instâncias supremas do poder político português.
- Os problemas no acesso às fontes (Sousa, 2003: 78) fazem com que as organizações noticiosas se direccionem para as fontes institucionais em detrimento das individuais, pois só entidades burocratizadas têm capacidade para manter o fluxo rotineiro de informação verídica, credível e autorizada de que as organizações noticiosas necessitam. No caso em análise, ambas as notícias provêm da chefia do Estado.
- Não se notam directamente, mas adivinham-se em ambas as notícias condicionantes sociais relacionadas com o mercado e a audiência. O mercado da imprensa de meados do século XIX ansiava por publicações que oferecessem essencialmente notícias, devido à omnipresença das publicações que traziam essencialmente artigos políticos. O Diário de Notícias foi a resposta de um empresariado arguto e empreendedor a essa necessidade, o que por sua vez se reflectiu na política editorial e, portanto, nas notícias publicadas. Na segunda notícia revela-se a manutenção do interesse da audiência por factos - as notícias factuais continuam a constituir a base da informação.
- Não há análise ou comentário em qualquer uma das notícias. Na segunda notícia há um esforço para explicar a cirurgia e o que se passa com o Presidente da República, mas não temos dados para dizer se a informação foi procurada pelo jornalista ou é oriunda dos serviços da Presidência da República, o que é mais provável. Em ambas as notícias o papel do jornalista13 é essencialmente o de mero organizador e transmissor da informação. Esta opção, embora possa ser o resultado dos condicionalismos derivados da política editorial da organização noticiosa, também pode indiciar a auto-imagem que o jornalista tem do seu papel, que é um exemplo de um condicionalismo pessoal sobre as notícias.
- Os redactores recorreram, em ambas as notícias, às rotinas cognitivas que os ajudam a compreender o mundo e a organizar coerentemente os dados caóticos que esse mesmo mundo lhes envia constantemente (Stocking e Gross, 1989). A atenção dada aos chefes de Estado não é apenas cultural. É também o resultado da actividade cognitiva dos jornalistas, actividade esta que lhes permite compreender o mundo: um mundo onde há líderes e liderados, onde há estados chefiados por alguém. A forma das notícias também não é apenas cultural, nem fruto das políticas editoriais das empresas. Quem redigiu a primeira notícia aqui inserida pensava, certamente, que redigir notícias era proceder como o fez. Ou seja, mobilizou a sua mente, como sempre o fez, de maneira a dar sentido ao mundo das notícias (rotina cognitiva). Por seu lado, a recorrência à técnica da pirâmide invertida, na segunda notícia, é uma manifestação de um saber de narração (Ericson, Baranek e Chan, 1987) que para cada jornalista e para a "tribo" jornalística (Traquina, 2002) funciona como uma manifestação de competência profissional. Cada jornalista, sempre que redige uma notícia com base nessa técnica, dá sentido pessoal a um acto profissional e revalida, aos seus próprios olhos, o seu lugar no mundo.
- Sempre que enuncia alguma coisa, cada pessoa mobiliza palavras que fazem parte do seu inventário discursivo. Do seu e não do de outra pessoa qualquer. Cada pessoa escreve e fala de maneira diferente, por muitas que sejam as semelhanças entre as formas de falar e dizer, porque cada pessoa domina a língua de forma diferente. Ambas as notícias ressentem-se necessariamente desse processo (Sousa, 2000) - dito por outras palavras, e de maneira simples, quem as redigiu usou as palavras que conhecia para as elaborar.
- Os processos rudimentares de composição e impressão de textos não permitiam notícias muito grandes nem jornais com muitas páginas durante quase todo o século XIX. A primeira notícia ressente-se dessa circunstância. A segunda beneficia dos processos actuais de composição e impressão.
Estamos convencidos de que é tarefa dos estudiosos do jornalismo construir uma explicação unificada para as notícias, se é que os estudiosos do jornalismo querem ambiciosamente chegar a algum lado. Estamos também convencidos que de os estudos jornalísticos foram de tal forma férteis que já nos deram matéria-prima suficiente para edificarmos essa explicação unificada de forma simples, breve e clara, como acontece em qualquer teoria científica, independentemente da complexidade da fundamentação da mesma. Estamos ainda convencidos de que qualquer notícia é fruto de condicionantes pessoais, sociais, ideológicas, culturais e históricas, do meio físico em que é produzida e dos dispositivos tecnológicos que afectam a sua produção. É possível, assim, explicar qualquer notícia em função da interacção dessas forças e prever que qualquer notícia que venha a ser enunciada e fabricada dentro do sistema jornalístico resultará igualmente da interacção dessas forças. Por isso, pensamos, e consideramos provado, que essas forças têm de estruturar uma teoria unificada do jornalismo. Quando uma notícia vier a contradizer a teoria, será, então, altura de rever a teoria e, eventualmente, de a substituir.