O agendamento da mídia online e o tratamento dispensado à cobertura da temática latino-americana no CorreioWeb

Fábio Henrique Pereira1
Universidade de Brasília - UnB


Índice

Sinopse

Este estudo analisa o processo de produção de notícias do site CorreioWeb e a ação dos promotores de notícia no agendamento de dois episódios distintos: A viagem de Lula à Argentina e Chile e A greve geral na Venezuela. Para isso, analisou 47 matérias publicadas no site durante a primeira semana de dezembro. Os resultados mostraram como a ação diferenciada dos promotores de notícia pode influenciar o tratamento e o enquadramento dado pelos jornalistas a determinado acontecimento. Por outro lado, ele demonstra como as novas tecnologias e o processo de hibridação do jornalismo mediado pelas instituições transfigura o papel do jornalista produtor de notícias para jornalistas como árbitro do espaço público.

Abstract

This paper analises the newsmaking process on the site CorreioWeb and the action of news promoters in agenda-setting of two cases: Lula's trip to Argentina and Chile and The geral strike on Venezuela. To make it, the study analised 47 articles published on the site during the first week of december. The results showed how diferents actions by news promoters can influence the treating and framing of news. By the other side, it shows how news technologies and hybridization of journalism by insitutions changes journalist paper: from newsmaker paper to journaliste like a judge of public space.

Introdução

A intenção deste estudo é fazer uma análise comparativa do conteúdo e do tratamento dado pela seção `Últimas' do site de notícias CorreioWeb a dois acontecimentos que marcaram o noticiário internacional durante a primeira semana de dezembro de 2002. São eles: a primeira visita de Lula como presidente eleito à Argentina e ao Chile e o início da greve geral que estourou na Venezuela contra o presidente Hugo Chávez. Apesar da temática comum -- América Latina -- os dois episódios chegaram à mídia e à agenda pública de maneira distinta. Enquanto a viagem de Lula foi amplamente divulgada pelas assessorias do presidente eleito, a greve na Venezuela -- embora se reconheça uma clara intencionalidade dos organizadores de dar à ocorrência visibilidade mediática -- alcançou o `status' de acontecimento sem a necessidade da ação sistematizada do que Harvey Molotch e Marily Lester (in Traquina, 1993) chamam ``promotores da notícias'' (`news promoters').

A partir daí, foram estabelecidos para este estudo os seguintes objetivos:

Analisar a influência do processo de produção da notícia para um meio específico -- a Internet -- sobre o conteúdo jornalístico;

Analisar o impacto das estratégias de agendamento utilizadas nos dois episódios sobre o tratamento dispensado pelo CorreioWeb.

A escolha de temas internacionais é proposital. Percebe-se que a maioria dos sites não possui condições de enviar correspondentes ao estrangeiro e ficam bastante dependentes de agências e assessorias. E é justamente esta dependência de informações de segunda mão -- uma condição imposta pela necessidade de alimentação dos sites em tempo real -- que pretende-se investigar neste trabalho. As conclusões do estudo vão apontar algumas perspectivas importantes para o estudo da Internet e do processo de hibridação dos gêneros jornalísticos.

Desenvolvimento

Das rotinas produtivas ao `agenda-setting'

A teoria que estabelece uma relação causal entre a agenda mediática e a agenda pública, exposta por MacCombs e Shaw em 1972 levou a uma revalorização do papel da imprensa como um campo de conflitos e interações. Segundo Molotch e Lester (in Traquina, 2000), o jornalismo assume um papel estratégico na sociedade moderna: o de dar à ocorrência o `status' de acontecimento por meio da sua publicação sob a forma de notícia. Segundo Nelson Traquina duas variáveis vão influenciar os processos de produção noticiosa e a constituição da agenda jornalística. São eles:

``Toda actuação dos membros da tribo jornalística e, em particular, os critérios de noticiabilidade que utilizam na seleção de ocorrências; A acção estratégica dos promotores de notícia e os recursos que possuem e são capazes de mobilizar para obterem acesso ao campo jornalístico''. (Traquina, 2000: 26)

Dentro do primeiro nível de influência, merece destaque o impacto das rotinas produtivas na composição do discurso jornalístico. Segundo Jorge Pedro Sousa (2000), a pressão do tempo obrigaria os jornalistas a recorrerem a rotinas cognitivas que vão facilitar o processo de seleção e organização das informações. Em consonância ao pensamento de Sousa, ressalta-se ainda a influência do meio físico e tecnológico no processo de produção da notícia, neste caso, as especificidades do meio Internet.

O `jornalista sentado'

O jornalista da Internet é um profissional que não `corre atrás' da informação. Pelo menos da forma convencional de apuração onde o repórter, segundo Maurice Mouillaud (1997), manteria uma relação e recíproca simbólica com agentes do espaço público (fontes). Pelas observações e entrevistas realizadas com os responsáveis pelo conteúdo dos sites CorreioWeb, iG e Universo Online2, o que se distingue na Web é a figura do profissional sentado à frente do micro, cujo trabalho se resume à transposição (quase sem adaptação) para o site de ``matérias requentadas, de flashes que copiam de outros sites, portais, de informação de segunda ou terceira mão, sem jamais se deslocar pessoalmente ou se comunicar diretamente por telefone com a fonte ou as fontes de informação'' (Adghirni in Mota 2002: 157). É o que os franceses chamam de `journaliste assis' -- jornalista sentado -- em contraposição ao `journaliste debout', o jornalista em pé, que faria o trabalho de apuração convencional.

Para grande parte dos teóricos, a situação do jornalista sentado é bastante problemática. Maurice Mouillaud (1997) diferencia duas categorias que respondem pelo preenchimento do ``quarto de ecos'', metáfora utilizadas para representar a pluralidade de vozes de existentes em um jornal. De um lado, estariam as agentes. Estes seriam responsáveis pela produção de um discurso estratégico. De outro estariam as fontes de informação. O que Mouillaud destaca é que, ao tratar o material das agências como fonte de informações (e não agente), o jornalista estaria pressupondo a falta de interesse das agências noticiosas em produzir um dado enunciado. No entanto, mesmo que as grandes agências se considerem fontes transparentes, a contestação desde `status' (pelos países do terceiro mundo) já demonstra a existência de uma orientação estratégia no discurso.

Já Ciro Marcondes Filho (2000) citando Ramonet (1997) e Lavoinne (1991) chama atenção para a debilidade do `status' profissional do jornalista com o advento das novas tecnologias. O jornalista agora não é mais o produtor exclusivo de informações, sua função confunde-se com a do comunicador e restringe-se a ``simplificar, condensar, escolher e sintetizar'' as informações provenientes de agências e assessorias de imprensa. (Lavoinne in Martin, 1991, cit. Marcondes Filho, 2000, p. 39).

A perda do monopólio de produção da informação e a fluidez entre de fronteiras entre o jornalista e o comunicador não significaria, como ressaltam os apocalípticos, o fim do jornalismo. Segundo Denis Ruellan (1998) ao tornar-se também consumidor de informações, o jornalista estaria reforçando o seu papel de arbitragem, de mestre de escolhas. Esta também é a expectativa de Sílvia Moretzsohn (2002: 173) que sublinha o papel decisivo do jornalismo como uma prática de mediação discursiva:

É através dela que podemos tomar conhecimento do que ocorre no mundo. O ponto de partida, portanto, é a recuperação da importância do jornalista como mediador, como parte da recuperação do próprio sentido político da mediação.

O papel do jornalista-mediador, além das implicações na reestruturação do estatuto profissional vai assumir grande importância na organização e hierarquização de um grande volume de informações bem como na gestão de um espaço público privilegiado.

O jornalismo em `tempo real'

Dentro do estudo das rotinas produtivas do jornalismo `online', merece ser destacado ainda a noção de `tempo real' ou `fluxo contínuo'. As professoras Elizabeth Brandão (1999) e Zélia Adghirni (2001) mostram como a difusão deste tipo de notícia foi organizada inicialmente para a produção de informação estratégica destinada a alimentar o mercado financeiro. A partir daí, ela migra para os `sites' dos jornais tradicionais e passa a ser disponibilizada para o grande público. Sílvia Moretzsohn, por sua vez, vincula a notícia em tempo real, ao processo de feitichização da velocidade, típica do jornalismo atual. Segundo ela, desde a sua constituição como atividade industrial, o jornalismo convive com a contradição entre velocidade e verdade. Com a corrida contra o tempo e a necessidade de alimentação dos sites em fluxo contínuo, essa contradição seria resolvida pela ``eliminação de um dos termos do problema -- a necessidade de veicular informações corretas e contextualizadas -- pois `qualquer explicação serve' para sustentar a notícia transmitida instantâneamente''. (Moretzsohn, 2002: 179)

As implicações deste processo nas rotinas produtivas resulta na submissão do jornalista à lógica do mercado financeiro. Esta lógica pressupõe a alta velocidade de circulação de informações a alimentação das `turbinas' em `fluxo contínuo'. Assim, o jornalista deixaria de ser, nas palavras do diretor do `Le Monde Diplomatique', Ignacio Ramonet (1999), um ``analista do dia'' para se transformar num ``instantaneísta''. Ou, segundo Ciro Marcondes Filho (2000: 37):

O processo digital, de tempo real, de comunicações on line estabelece novos parâmetros sociais. Tudo muda. O jornalismo, bem como os valores de progresso, evolução, e razão, foram emanações de outra época histórica, foram epifenômenos da revolução industrial burguesa dos séculos 18 e 19. Não seria coerente que num momento de introdução revolucionária da técnica de inscrição, armazenamento e reaproveitamento de informações -- como é a informática -- sobrevivessem derivações de outras épocas históricas.

O agendamento dos media e a ação dos `news promoters'

A segunda variável que vai influenciar a constituição da agenda jornalística é a ação dos ``promotores de notícia''. Estes profissionais teriam como o objetivo elevar determinadas ocorrências ao status de acontecimento jornalístico. A teoria de Harvey Molotch e Marilyn Lester (in Traquina 1993) pressupõe a existência de três agentes, inseridos no processo de produção e difusão da notícia:

Os promotores de notícia (`news promoters'): identificam uma ocorrência como especial. São eles também os responsáveis pela proposição da agenda político-governamental;

Os `news assemblers'3 que a partir do material proposto pelos promotores de notícia vão transformar uma ocorrência em acontecimento público por meio da publicação ou radiodifusão

Os consumidores da notícia

Molotch e Lester reconhecem a existência de uma luta entre promotores da notícia e jornalistas. Por um lado, os promotores criariam pseudo-acontecimentos, onde agregariam valores notícia, na tentativa de influenciar a agenda mediática. Um dos objetivos dos `news promoters' seria justamente ``fazer concidir as suas necessidades com as dos profissionais do campo jornalístico'' (Molocth e Lester, cit. Traquina 2000: 22) Os jornalistas, por sua vez, buscariam formatar as informações de acordo com as rotinas de produção, os valores notícia e a cultura das organizações noticiosas em que trabalham. Sousa (2000) destaca, contudo, que a necessidade de alimentação contínua de notícias e a pressão do tempo nas rotinas profissionais acabam tornando o jornalista dependente dos canais de rotina (conferências de imprensa, agências de notícia, `press releases e etc).

Das teorias e conceitos expostos acima, fica a idéia do jornalista como gestor privilegiado de um campo de lutas e interesses distinto, embora a função de mediador esteja em grande parte limitada por uma série de constrangimentos e contingenciamentos inerentes à profissão. A aplicação destes conceitos no estudo de caso pretende demonstrar como as limitações da produção jornalística para a Internet e a ação dos promotores da agenda política-governamental vão influenciar na formatação do discurso noticioso.

O estudo de caso: o agendamento da mídia online e o tratamento dispensado à cobertura da temática latino-americana no CorreioWeb

Durante o período que vai de 02 a 08 de dezembro de 2002 foram coletadas 47 matérias nas editorias de Mundo e Política da seção `Últimas' do `CorreioWeb'. O material foi posteriormente dividido e classificado segundo os episódios selecionados: Viagem de Lula à Argentina e Chile e Greve geral na Venezuela. A descrição de cada episódio será feita individualmente. Posteriormente será feita uma reflexão sobre o tratamento dado pelo CorreioWeb aos dois casos.

A visita de Lula à Argentina e Chile

Durante o período da pesquisa, foram publicadas 22 matérias sobre a primeira viagem de Lula como presidente eleito. Quase a totalidade das matérias (21 notas) foram publicadas nos dias 02 e 03 , período em que aconteceu a visita de Lula àqueles países. Praticamente não foram publicadas notas que analisassem ou contextualizassen o acontecimento dentro da política externa brasileira.

Das 22 notas publicadas, metade foi produzida a partir do material da Agência Brasil, uma agência estatal especializada na cobertura e divulgação dos atos do governo. Outras oito matérias utilizaram-se dos despachos da agência `FolhaNews'. Apenas três notas foram redigidas a partir da redação por meio do acompanhamento de outras agências e serviços de rádio-escuta e TV-escuta.

A dependência de material de agências noticiosas já uma prática comum no `CorreioWeb'. O principal motivo é a limitação financeira e de pessoal. A equipe da `CorreioWeb' conta com apenas 11 pessoas4 responsáveis pela atualização da página em tempo real e pela manutenção de todo conteúdo do site. Há ainda, na opinião da coordenadora do `CorreioWeb', Renata Lu5, uma grande cobrança por parte do público pela atualização do `site' em fluxo contínuo. O aproveitamento do material da Agência Brasil (gratuito) e da `FolhaNews' (melhor custo-benefício na relação quantidade de informações / preço) garantiriam, assim, a alimentação do `CorreioWeb'.

As notas publicadas seguiram quatro categorias temáticas, enumerados a seguir:

Divulgação de agenda de viagens;

Cobertura factual dos eventos da viagem: divulgação dos atos do presidente eleito nos países visitados;

Cobertura de pronunciamentos e discursos;

Repercussão da visita junto aos jornais locais e ao presidente Fernando Henrique Cardoso.

Apenas duas matérias fugiram deste tipo de enfoque: uma matéria analítica relacionando a visita de Lula e o cenário pré-eleitoral na Argentina e uma reportagem especulativa sobre um suposto programa de ajuda ao Mercosul, avaliado em 60 bilhões de dólares. Esta matéria, reproduzida pela agência `FolhaNews', teve como base outra reportagem publicada pelo jornal argentino `Âmbito Financeiro'.

O que se verifica nas matérias analisadas é a ênfase excessiva na cobertura factual da visita, uma característica da produção em tempo real. Além disso, o enquadramento6 adotado -- em parte pela dependência da cobertura feita pela Agência Brasil -- centrou-se apenas nas fontes oficiais. Pouco se falou da situação financeira da Argentina (naquela mesma semana, era decretado o fim do `coralito' naquele país) ou da importância dos países visitados no contexto da política externa brasileira. O destaque, no caso, foi dado à espetacularização da figura do presidente eleito em sua primeira viagem ao estrangeiro. É interessante notar ainda que, enquanto as matérias sobre a greve na Venezuela foram disponibilizadas na editoria de `Mundo', a cobertura da viagem de Lula foi toda feita pela editoria de `Política', o que demonstra a escolha prévia de um enfoque que a cobertura vai assumir no decorrer das visitas.

Por fim, é preciso ressaltar a ação das assessorias como definidores primários (`primiary definers') dos enquadramentos adotados. Salta aos olhos o fato de algumas matérias terem sido feitas exclusivamente com base em press-releases e declarações do assessor Marco Aurélio Garcia. Outro caso em que as assessorias se adiantaram às rotinas produtivas das agências foi na divulgação prévia do pronunciamento de Lula no Chile. Antes mesmo do discurso acontecer o CorreioWeb já divulgava seu conteúdo, veiculando notas que utilizavam as seguintes expressões: : ``No pronunciamento que fará daqui à pouco....'' ou ``No pronunciamento que fará logo após o encontro''. A divulgação prévia do demonstra uma relação de dupla conveniência entre jornalistas e assessores. Por um lado, os jornalistas conseguem produzir segundo a lógica do tempo real, utilizando um material de credibilidade garantida. Os assessores, por sua, vez têm seu espaço garantido nos meios de comunicação, além de passarem um enquadramento mais favorável às suas fontes.

A greve geral na Venezuela

Durante a semana em que iniciou a quarta greve geral na Venezuela, o CorreioWeb publicou 25 notas. A maioria delas (14) foram redigida pela equipe do site. Outras nove matérias utilizaram despacho da FolhaNews, e apenas uma nota foi feita com base na Agência Brasil. Houve ainda um reportagem publicada a partir de informações da rede CNN.

A cobertura do evento pode ser dividida em duas etapas distintas. Num primeiro momento, as matérias publicadas buscavam contextualizar a greve e a situação do governo do presidente Hugo Chávez. Nesta etapa, a cobertura buscou abrir espaço para vários interlocutores, como governo, sindicatos, partidos de oposição, mediadores internacionais e etc. Boa parte das matérias, contudo, buscaram uma angulação em que o sucesso ou o fracasso da greve eram medidos pela paralisação do PIB venezuelano. Assim, a disputa no campo jornalístico entre os vários segmentos da sociedade venezuelana vai ser marcada principalmente pelos impactos econômicos da greve.

A partir do dia 04, o CorreioWeb intensificou a cobertura com um maior número de inserções e o enfoque em matérias factuais. A abordagem das matérias vai agora assumir um tom mais oficialesco, embora longe das proporções da cobertura da viagem de Lula. Matérias sobre mortes e confrontos durante as manifestações também vão ganhar destaque na cobertura.

De modo geral, pode-se concluir que a greve na Venezuela, embora tenha sido um acontecimento programado e com uma clara intencionalidade de ganhar visibilidade mediática, assumiu determinada proporção que garantiu sua publicação, sem a necessidade de um agendamento sistemático dos promotores de notícia. Deve-se ressaltar a ênfase do site em matérias produzidas dentro da redação, o que reduziu o oficialismo da cobertura e dependência de matérias de outras agências.

Algumas conclusões sobre os dois casos

Molotch e Lester (in Traquina, 1993) dividem os acontecimentos de rotina em quatro categorias, de acordo com o acesso dos promotores de notícia à fase de montagem da notícia pelos jornalistas. Dos tipos expostos pelos autores, as duas primeiras categorias merecem destaque neste trabalho. São elas:

Acesso habitual dos promotores aos jornalistas: quando as necessidades dos promotores coincidem com as dos jornalistas.

Acesso disruptivo quando as pessoas ``fazem'' a notícia entrando em conflito com o sistema de produção jornalístico. Segundo os autores, ``a ocorrência disruptiva torna-se acontecimento porque é um problema relativamente poderoso'' (in Traquina, 1993: 45).

No caso da viagem de Lula, fica claro a existência de um acesso habitual dos promotores junto aos jornalistas. Já no segundo caso, o acesso aos meios de comunicação é disruptiva, a greve em si tornou-se um tema `improvável'7 o suficiente a ponto de merecer o status de notícia. Os reflexos das diferentes estratégias de agendamento no discurso jornalístico ficam evidentes. Por um lado, o envio sistemático de informações -- muitas vezes adaptadas às de produção do jornalismo -- pelos promotores de notícia foi capaz de ``furar'' o bloqueio dos `gatekeepers' e produzir um enquadramento factual e oficial nos media (Sousa 2000). Por outro lado, a transformação de uma ocorrência em notícia pela própria força dos fatos obrigou os jornalistas a uma busca mais organizada de informações e permitiu a abertura a outras vozes na composição do discurso jornalístico.

Por fim, embora a cobertura dos episódios pelo site tenha sido feito quase que exclusivamente a partir de despachos de agências noticiosas, isto não significa que o jornalista do CorreioWeb tenha assumido um papel secundário no processo de veiculação destas notícias. Segundo Maurice Mouillaud (1997: 120), a própria passagem do despacho agencia para um artigo de jornal exigiria uma série de operações que afetariam o conteúdo da notícia. Além disso, é o próprio jornalista quem, em última instância, vai definir o papel das agências (se fonte ou agente) na produção noticiosa:

``Disto resulta que a distinção entre os dois tipos de enunciados (o discurso estratégico e a informação) e os tipos de locutores (as fontes e os agentes) não designam conjuntos com limites precisos, mas conjuntos fluidos, cujas fronteiras são incertas'' .

É dentro deste processo de hibridização das fronteiras entre imprensa e assessorias, jornalismo e comunicação, que se destaca a figura do jornalista como árbitro, mediador dos interesses da sociedade e do governo. A questão que se coloca agora é que, em que medida, os constrangimentos organizacionais e as limitações impostas pelas rotinas profissionais vão desqualificar este papel de arbitragem do jornalista. De medidor, o profissional de imprensa pode se transformar numa simples correia de transmissão dos interesses dominantes tanto no campo político como econômico.

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Notas de rodapé

... Pereira1
Aluno regular do Mestrado em Comunicação / Jornalismo e Sociedade da Universidade de Brasília
... Online2
Durante entrevistas realizadas pelo autor
... assemblers'3
Definidos por Molotch e Lester (in Traquina 1993) como os profissionais do campo jornalístico responsáveis pela montagem da notícia.
... pessoas4
Dentre estas 11 pessoas, estão incluídos jornalistas formados, estagiários de jornalismo e ``produtores de conteúdo''
... Lu5
Durante palestra realizada na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília
... enquadramento6
Enquadramento ou `framing': ``dispositivo interpretativo que estabelece os princípios de seleção e os códigos de ênfase na elaboração de notícia, na construção da estória'' (Traquina, 2000, p. 28)
...avel'7
Parte-se aqui da definição de acontecimento feita por Adriano Rodrigues (in Traquina, 1993),: ``É acontecimento tudo aquilo que irrompe na superfície lisa da história entre uma multiplicidade de factos virtuais (p. 27). O autor chega a estabelecer uma regra, segundo a qual, a publicação de um acontecimento é inversamente proporcional á sua previsibilidade.