Quando o jornal se explica
As páginas do Provedor do Leitor do Setúbal na Rede
Setúbal - 2005

Ricardo Nunes1

 

Índice

 

 

Prefácio

A falta de ``capacidade de análise crítica'' dos alunos do curso de Comunicação Social da Escola Superior de Educação de Setúbal foi apontada como o principal factor negativo no balanço feito pela generalidade dos orientadores de estágio ao desempenho dos estudantes.

Este é talvez um dos grandes males que enfermam o jornalismo de hoje, ao tornar-se uma actividade trivial, desorientada na voragem dos dias, na rapidez da actualidade e destituída de toda uma carga intelectual que a caracterizava e que é essencial para o seu papel social.

Vivendo a actividade jornalística da sua própria exposição, ela está, mais do que qualquer outra, sujeita a críticas e a acusações. Transformou-se mesmo, nos tempos modernos, no principal bode expiatório da sociedade, culpada por tudo o que de negativo acontece.

Tornou-se lugar comum ouvir acusações de que os jornalistas `estão feitos' com este ou aquele interesse, que defendem esta ou aquela causa, quando muitas vezes o motivo de evidenciadas tendências não é mais que fruto de uma profunda ingenuidade, de quem se limita à versão oficial dos acontecimentos ou a servir de ``pé de microfone''.

Se o jornalista não se munir, permanentemente, da indispensável capacidade de análise crítica das situações, esquece facilmente, no processo de rotina das redacções, alguns dos requisitos base da actividade.

A falta dessa capacidade crítica faz com que, especialmente os mais jovens na profissão, acreditem com facilidade na primeira fonte que ouvem, geralmente através de uma vulgar conferência de imprensa convocada para difundir uma determinada opinião, e julguem desnecessário procurar outras versões e auscultar todas as partes com interesse na informação veiculada.

É muitas vezes a negligência que impera nas redacções, pejadas de boas vontades mas também de muita ingenuidade, onde a palavra exigência é quase desconhecida ou vista como simples tirania das chefias. Mas só a exigência permanente e levada ao extremo pode marcar hoje a diferença, num meio tão concorrencial e no qual tantos argumentos fúteis podem contribuir para o sucesso ou insucesso de uma publicação.

Quando os recursos humanos são limitados, o acesso às fontes difícil dentro do tempo útil para publicação da notícia, o fluxo informativo cada vez maior e a concorrência impõe que se esteja `em todas', não faltam desculpas para a falta de capacidade crítica. Quando, neste cenário, a auto-crítica não surge de forma natural, é preciso estimulá-la e esse tem sido o grande papel do Provedor do Leitor do ``Setúbal na Rede''.

O ``Setúbal na Rede'' sempre fez por se pautar por elevados critérios de exigência, reconhecidos em 1999 pelo Prémio Gazeta de Imprensa Regional atribuído pelo Clube de Jornalistas e revelados a partir do seu pioneirismo, enquanto primeiro jornal digital do país, na publicação em livro de trabalhos concebidos e editados em suporte electrónico, no conjunto de eventos produzidos, entre debates, seminários e tertúlias.

Essa exigência, baseada na consciência do papel importante que um órgão de comunicação social de referência pode ter no desenvolvimento regional, levaram em 2003 à criação de um Conselho de Opinião (CO), no qual um conjunto de 20 personalidades, representativas de diferentes quadrantes da sociedade, ajuda à reflexão e à definição do percurso a seguir.

Foi a partir das reuniões do Conselho de Opinião que nasceu a ideia de criar a figura do Provedor do Leitor do ``Setúbal na Rede'', mais uma iniciativa pioneira, pois tratou-se do primeiro jornal regional e, simultaneamente, do primeiro jornal digital, a criar este cargo. Um papel desempenhado em rotatividade, por períodos de três meses, entre os elementos que compõem o CO.

Numa perspectiva de que o nosso trabalho só faz sentido se forem tidas em conta as opiniões dos leitores e se formos ao encontro aos seus anseios e expectativas, o ``Setúbal na Rede'' prossegue o objectivo de desenvolver um trabalho dentro da linha que se convencionou chamar de jornalismo cívico ou comunitário, o que, aliado às facilidades de interactividade proporcionadas pela Internet, impõe que tudo se faça para estimular essa participação.

Criada a figura do Provedor, inicialmente assumida pelo João Palmeiro, em Outubro de 2004, depressa se percebeu que a participação dos leitores não seria tanta quanto desejaríamos. Afinal, uma realidade comum aos provedores de outras publicações.

Segundo Jorge Wemans, na sua coluna de Provedor do Leitor do Público, compilada em ``O Público em público'', o número de contactos semanais com os provedores de jornais europeus e americanos oscila entre os 20 e os 48 mil leitores por cada contacto semanal.

Tendo o ``Setúbal na Rede'' uma média de mil visitas por dia, dificilmente conseguiríamos adaptar esses números ao nosso caso, pois concluiríamos que aqui deveríamos receber um contacto, na melhor das situações, de dois em dois anos.

Nesse aspecto, a iniciativa foi bem sucedida, pois foram já vários os contactos recebidos, ainda que muito insuficientes para garantir assuntos para uma crónica semanal. Essa condicionante tem feito com que sejam os provedores a encontrar temas para os seus textos, que têm resultado, mesmo assim, em excelentes motivos para reflexão.

João Palmeiro, valendo-se da sua experiência como presidente da Associação de Imprensa de Portugal, concentrou a sua atenção sobretudo nos novos rumos do jornalismo, vislumbrados a partir do advento da era electrónica. Ricardo Nunes deixou vir ao de cima a sua vertente mais académica, que sempre utilizou enquanto profissional empenhado, para lançar permanentes inquietações e provocações à redacção e ao próprio director do ``Setúbal na Rede''.

Um conjunto de pistas que, na maior parte dos casos, ficaram por trilhar, devido ao que fica politicamente correcto chamar de conjuntura. Mas quanto aos alertas mais prementes espera-se que tenham produzido efeito imediato. Os resultados não são de percepção fácil, mas é bom saber que anda alguém especialmente atento àquilo que fazemos.

A dúvida, nestes casos, é saber da utilidade destes escritos fora do contexto, espacial e temporal, para o qual foram pensados, mas seria um delito grave deixar estes excelentes exercícios de análise perdidos no imediatismo de uma publicação digital.

É precisamente do imediatismo que vive a essência do jornalismo electrónico, mas há virtudes que só este suporte pode oferecer, como o arquivo histórico onde todos os trabalhos renascem constantemente de cada vez que são pesquisados e onde esses textos continuam disponíveis.

A base de dados permanente, a interactividade, a vertente multimédia, o alcance mundial imediato, a componente ecológica, a facilidade de consulta, a personalização ou o hipertexto, são algumas características próprias deste novo meio, mas o substancial da técnica jornalística mantém-se, assim como a ética e a deontologia fundamentais ao ofício, a necessidade do domínio do bom português ou o rigor que os leitores esperam e merecem.

E foram verdadeiras lições sobre todas essas questões com que Ricardo Nunes nos foi presenteando semanalmente ao longo de três meses, partindo sempre de exemplos da actualidade e, quando possível, de questões colocadas pelos leitores.

Com um poder que poucos têm como ele de nos inquietar, de nos desafiar como se não houvesse limites, como se tudo fosse possível e estivesse ao nosso alcance. Aliás, essa é a sua imagem de marca. Pensar grande, pedir a lua, com uma credulidade que nos deixa atónitos, mas que resulta, de forma bem eficaz, como um incitamento à exigência.

A mesma exigência que, quando presente, não nos deixa esquecer a ``capacidade de análise crítica'', para nos melhorarmos a cada momento, em busca da excelência que nunca alcançaremos, mas que almejamos ver cada vez mais perto.
Pedro Brinca
Director do ``Setúbal na Rede''

1  Introdução

De Janeiro a Março de 2005 assumi funções de Provedor do Leitor no Setúbal na Rede (www.setubalnarede.pt) ``o portal do distrito de Setúbal'', de acordo com o esquema de rotatividade e duração de funções definido pelo Conselho de Opinião do mesmo orgão.

Os textos apresentados revelam a intervenção do Provedor quando questionado pelos leitores ou, na sua ausência, a reflexões que tiveram o Setúbal na Rede como âncora. Também os temas fortes da actualidade informativa bem como alguns fenómenos da comunicação social tiveram presença habitual.

A síntese, não sendo agrupada por tratamento temático (questões técnicas de escrita jornalística, análise morfológica, rigor do português, etc.), resulta da totalidade das intervenções semanais. Deste modo, são apresentadas de forma cronológica as várias reflexões que marcaram a actividade deste observador e mediador de questionamentos. Fosse a duração do mandato mais longa e o critério de apresentação, com toda a certeza, seria outro.

Creio estar gasto o testemunho de quem sugere a um público mais alargado análises, por vezes, demasiado circunstanciadas, de curta esperança média de vida, mas seguramente de alcance teórico e prático. Os testemunhos que seguidamente se apresentam resultam da necessidade sentida por um jornal em escutar os seus leitores, mas acima de tudo, dar-lhes resposta por quem se encontra mandatado para tal. Deste modo, o Provedor do Leitor, longe de se identificar com um ``muro de lamentações'' ou mesmo um ``livro de reclamações'', é um fiel das leituras, sentimentos e intervenções.

O conjunto de inquietações, fundamentalmente de carácter ético e deontológico, aponta em sentidos muito diversos,
exemplificando-se aqueles que parecem ser de pertinência maior: a necessidade crescente de responsabilizar socialmente os órgãos de comunicação social pelo produto apresentado aos seus leitores, a importância dos mecanismos de heteroregulação e autoregulação por parte dos jornalistas e o desejo de que os leitores sejam esclarecidos e que fiquem dotados de instrumentos de interpretação sobre a ``fabricação das notícias''. Fundamentalmente, procurou-se ir para além da espuma dos dias e perceber o substrato de alguns fenómenos, sejam eles localizados ou de expressão mais abrangente.

Os textos surgidos traduzem questões de pormenor que, pela repetição de alguns erros ou muletas, se podem transformar em ``pormaiores''. Para evitar desvios ou monotonias os leitores e o seu Provedor trataram de questionar, sempre que se justificava o aparecimento público de argumentos e justificações. As respostas sempre surgiram com rapidez e profundidade (razoável), quer da parte da redacção, quer da Direcção do jornal.

Creio haver necessidade de endereçar uma expressa mensagem aos que, directa ou indirectamente, durante várias semanas estiveram na montra do Provedor -- os jornalistas. Por também ser profissional encartado, por conhecer o corpo redactorial do jornal, por haver relações de companheirismo e amizade, nem sempre foi pacífico assumir determinadas posições de força. Principalmente por dominar o direito e o avesso das práticas na redacção, bem como os modos de construir as notícias. Sem me abrigar na sacrossanta objectividade de intervenção, direi que todo o trabalho apresentado foi feito com rigor, isenção e respeito pelo trabalho dos jornalistas mas também com a frontalidade, esclarecimento e sentido pedagógico que se impõe aos leitores.

Trabalhando numa espécie de limbo, ausente da redacção e distanciado do público em geral, o Provedor é por isso um protagonista presente-ausente. Melhor seria que os seus escritos pudessem ser devidamente interpretados e adoptados pelos jornalistas a quem frequentemente pede explicações e sugere orientações. Melhor seria se o público, primeira razão de ser da sua existência, colaborasse mais activamente: em quantidade e profundidade nas intervenções.

Com esta iniciativa o Setúbal na Rede manifestou a humildade de saber escutar a crítica mas também a serenidade do elogio. Em nome do pluralismo de opiniões, da intervenção oportuna e da clarificação da máquina mediática, a figura do Provedor sai reforçada enquanto elo de ligação entre as esferas da produção informativa e do consumo por parte dos seus leitores. Tenha o nome de baptismo de ``Provedor'' (Portugal), ``Ouvidor'' (Brasil), ``Defensor'' (Espanha), ``Mediateur'' (França) ou a internacional designação ``Ombudsman'', em teoria a sua figura significa (ou devia significar) globalmente, melhor jornalismo e melhor clarificação dos modos de trabalhar

No primeiro texto apresentado foram sublinhados o rigor e a qualidade das prestações do anterior Provedor do Setúbal na Rede. Com João Palmeiro iniciei três meses antes do meu mandato o saudável hábito de descobrir novas realidades no portal. Uma lógica que se foi entranhando, numa espécie de estágio propedêutico à minha própria intervenção. Agora que a breve maratona chega ao fim, entrego a Brissos Lino, também elemento do Conselho de Opinião do Setúbal na Rede, o testemunho de doze semanas de reflexão. Estou certo que, a pluralidade de registos reforçará o cabedal editorial e levará aos leitores novas e variadas interpretações do mundo que nos rodeia.

Aos leitores uma última palavra: ao contrário do que diz o provérbio, o cliente não tem sempre razão. Mas deve pedir explicações, esclarecimentos e fazer valer os seus direitos de cidadania. Quando tal não acontece é o exercício democrático que fica beliscado, por inércia ou afastamento voluntário das questões do dia a dia.

Fica completo um ciclo de doze semanas de intervenções e reflexões regulares. Um ciclo que nem sempre se traduziu em digestões fáceis mas, na maior parte das vezes, bastante agradáveis.
 
Até sempre.
Ricardo Nunes
Setúbal, Janeiro de 2005/Março de 2005

A presente introdução constitui um exercício de reformatação do último texto publicado no Setúbal na Rede, enquanto Provedor do Leitor. O texto intitulado ``Intervenções, reflexões e outras digestões'' foi , originalmente , publicado a 28 de Março de 2005.

1.1  Nova roupagem, novo grafismo

10-Janeiro-2005


Ao ter estimulado, com pioneirismo, o exercício crítico do papel de Provedor do Leitor, o ``Setúbal na Rede'' coloca-se na dianteira de uma saudável atitude criativa e simultaneamente humilde. Criativa porque exige ao mediador leitor/jornal um papel de afirmação e de inquietação face à vida do periódico on-line. Trata-se de um rasgo que vinca o saber estar de uma publicação que aposta em ideias e projectos inovadores. Humilde porque se dispõe a escutar sugestões, críticas e contributos da parte de quem lê, e sobretudo de quem veste a pele de Provedor. As palavras anteriores são endereçadas à Direcção do jornal, e principalmente ao meu antecessor. João Palmeiro fez história ao ser o primeiro Provedor do Leitor de um meio informativo nacional exclusivamente digital. A reflexão que trouxe a estas páginas electrónicas, a intermediação oportuna e a inquietação pertinente são a herança de várias semanas de trabalho empenhado. Sendo esta a herança, cabe-nos a todos continuar a fazer mais, e se possível, melhor. Tendo em conta que nos últimos dias não surgiram questões ao Provedor do Leitor, permito-me fazer de ``advogado do diabo'' lançando algumas ``farpas'' à Direcção do ``Setúbal na Rede''. Para além de intermediário, ser Provedor, é ter a capacidade de incomodar, questionar, clarificar, trazer luz aos assuntos fundamentais. Vamos a isto?


Arrumação participada (?) - A tradição volta a cumprir-se. Com o início de um novo ano, o ``Setúbal na Rede'' brinda os seus leitores com novas propostas ao nível da forma e da arrumação dos conteúdos. Assinalando o sétimo aniversário, a Direcção do jornal promove um ``refresh'' no grafismo da publicação, alinhando a página de acordo com novos princípios (barras de navegação alteradas, dossiês recompostos, renovados alinhamentos informativos, espaço destacado para opinião e empresas do distrito, etc.). Creio podermos assumir de modo pacífico que, teoricamente, os processos de mudança devem traduzir-se em lógicas de eficiência, quer do ponto de vista de quem produz a informação quer, fundamentalmente, de quem usufrui desse mesmo conjunto de conteúdos. Não se encontram muito distanciados no tempo alguns bons exemplos de consulta pública, antes de qualquer alteração de fundo na paginação e arranjo de publicações. Refiro-me, nomeadamente, ao Diário de Notícias, edição em papel, que ciclicamente escuta os seus leitores, face a uma mudança de fundo do seu rosto habitual. Levando à letra o conceito de provedor do leitor (originalmente, na língua sueca Ombudsman, o que representa o cidadão) pergunto à Direcção do jornal que papel teve o leitor na formatação da nova matriz, na nova forma de ajustar os conteúdos à página do ``Setúbal na Rede''?


Contributos 1 -- Duas ideias marcantes presidem à proposta que seguidamente apresento: faz tempo que escutei de um colega professor, durante uma cerimónia de posse de um orgão escolar, o seguinte comentário: ``O Presidente só consegue presidir se o reconhecerem como tal, mas, fundamentalmente, se o ajudarem a presidir''. Esta ideia, aparentemente, solta do contexto, encaixa noutra que Eugénio Fonseca, membro do Conselho de Opinião (CO) deste orgão, algumas vezes tem insistido: ``Surge uma nova forma de pobreza, a ausência de participação por parte dos cidadãos''. Pegando nestas duas abordagens endereço à Direcção do jornal os seguintes reptos: deve o Conselho de Opinião do ``Setúbal na Rede'', solicitar opinião/intervenção de personalidades ou organizações de reconhecido mérito quando os assuntos em questão dizem directamente respeito a um determinado sector da comunidade? Recordo que, para além dos válidos contributos de todos os membros que compõem o CO, deverá o mesmo promover aproximações aos que, no terreno, poderão ter um papel importante no desenvolvimento de um projecto editorial.


Contributos 2 -- Nas primeiras experiências de jornais digitais, resolveu uma publicação dos Estados Unidos colocar uma questão provocatória, para avaliar até onde chegava a mensagem e que retorno poderia o comentador esperar de um determinado desafio. A resposta foi estrondosa pois, de várias partes do mundo, surgiram mensagens e contributos vários. O breve mas expressivo episódio serve para documentar que a interactividade, ferramenta por excelência dos modelos electrónicos de comunicação, pode e deve estar ao serviço do leitor. Escrito isto, pergunto o que tem, efectivamente, sido feito pelo ``Setúbal na Rede'' para despertar, seduzir e alimentar esta cadeia de relação tão importante na galáxia digital. É uma evidência que o jornal/portal coloca ao dispor dos leitores algumas ferramentas interessantes, como são os Fórum, os e-mails dos jornalistas e colaboradores, as sondagens, e, mais recentemente, a figura de mediação do Provedor do Leitor. Ao iniciar um novo ano de vida, receberam os leitores que integram a lista de endereços, a proposta de integrar o Canal mail, ``no sentido de manter os leitores informados sobre as melhores novidades, ofertas e promoções do mercado''. Este serviço, presume-se, comercial pretende ir ao encontro dos ``interesses específicos de cada um''. Para quando um Canal mail orientado para as notícias, ou seja, um instrumento que permita receber informações de acordo com temáticas previamente seleccionadas?

Com a ajuda de todos, podemos encontrar novas formas de comunicação que facilitem o mundo das notícias e da informação. Quem avança a primeira ideia extra?

1.2  Árbitro, moderador e vitória futebol clube!

17-Janeiro-2005
Passados oito dias sobre as primeiras questões colocadas à Direcção do jornal, é tempo de dar conta das respostas e tecer os comentários que se consideram oportunos e que permitam tirar ilações futuras. Confrontada com a pergunta -- ``Que papel teve o leitor na formatação da nova matriz, na nova forma de ajustar os conteúdos à página do ``Setúbal na Rede''? -- responde Pedro Brinca, Director do jornal: ``O papel do leitor foi fundamental, tanto quanto possível. Não criámos nenhuma forma específica e propositada para auscultação da opinião dos leitores sobre as alterações gráficas a introduzir. Mas a interacção permanente com os leitores, quer através dos contactos via digital, quer através de pontuais contactos pessoais, permitem-nos ir aferindo permanentemente as opiniões diversas sobre a eficácia das opções adoptadas no ``Setúbal na Rede''. Sustenta o responsável pela publicação electrónica que ``As alterações agora introduzidas estavam há muito por se fazer, primeiro por uma necessidade urgente de automatizar métodos internos,  automatização essa de que resultariam obrigatoriamente algumas modificações de layout, embora estas não fossem, neste momento, a principal prioridade. Mas a necessidade de destacar na primeira página os conteúdos dos canais internos, há muito que se fazia sentir e que nos era apontado por muita gente.'' Por último, a Direcção confessa alguns ``pruridos'' em disponibilizar áreas no portal que permitam que a opinião seja veiculada. Embora Pedro Brinca sustente que o portal ``deve criar espaços para se discutir a região e não fechar a discussão em si mesmo, fazendo uma meta-discussão'', no entanto, o canal do Provedor do Leitor deve afirmar-se como o espaço de diálogo privilegiado para olhar o jornal de fora para dentro, de dentro para fora, e também, de dentro para dentro. Afinal, é para isso que cá estamos, nesse papel permanente de árbitro e moderador...

Quando confrontado com a pergunta ``Deve o Conselho de Opinião (CO) do ``Setúbal na Rede'', solicitar opinião/intervenção de personalidades ou organizações de reconhecido mérito quando os assuntos em questão dizem directamente respeito a um determinado sector da comunidade?'' surge uma resposta em jeito de provocação. Defende o Director que o CO deve caminhar no sentido de uma autonomia crescente, procurando, sempre que possível ``encontrar as suas próprias soluções para os problemas que ele próprio equacione''. E que expectativas se aguardam? ``O Conselho de Opinião ainda está muito colado à agenda do próprio portal, mas espero ansiosamente pelo momento em que o Conselho de Opinião nos provoque, nos inquiete, nos desafie...'' Senhores conselheiros, contra a apatia, inquietar, inquietar!!!

Ainda na semana de estreia do actual Provedor do Leitor, e enquanto se aguardavam questões por parte dos leitores, deixávamos duas notas em suspenso, orientadas por um lado para os recursos interactivos da publicação e por outro para a eventualidade de surgir um Canal mail (cariz comercial) orientado para a informação noticiosa. Reconhece o jornal que não tem havido muito estímulo para que os leitores interajam com o portal, embora sublinhe que ``geralmente, o ``Setúbal na Rede'' lança o primeiro input, ao publicar uma notícia, ao lançar um passatempo, etc., mas muitas vezes pode ser o próprio leitor a lançar, como no fórum. Mas de uma forma ou de outra, este tem de ser um processo continuado. Ou seja, quando nos chega uma participação de um leitor, é preciso haver capacidade de resposta do lado do ``Setúbal na Rede''. A questão dos meios existentes condiciona, e de que maneira, aquela que considera ser a ``reduzida capacidade de resposta'', que inevitavelmente não permitiu ``ir mais além.'' Quanto a um canal de acesso facilitado a notícias temáticas (política, economia, sociedade, etc.), há que dar tempo ao tempo, uma vez que ``essa selecção temática das notícias só se justificaria quando o volume de assuntos fosse considerável.
Isso só seria possível quando os recursos humanos permitissem esse acréscimo do aumento de produção'', sustenta.

Já sobre a hora de fecho desta intervenção do Provedor do Leitor chega a contestação endereçada por António Rita pelo facto do jornal se referir, por vezes, ao Vitória como ``O Setúbal''. Entende o leitor que, do ponto de vista estatutário, o clube sadino deverá ser tratado por ``Vitória Futebol Clube'' ou ``Vitória de Setúbal''. Sobre este assunto a redacção e o jornal serão questionados, quanto a mim, trarei as justificações apresentadas, bem como o enquadramento técnico do discurso que é subjacente a interpretações desta natureza. Para que o assunto fique a marinar vale a pena ir pensando quantas designações surgem na comunicação social sobre, por exemplo, o Sport Lisboa e Benfica, Sporting Clube de Portugal ou mesmo Futebol Clube do Porto. Para a semana vamos à bola!

Post scriptum

Porque é sempre salutar estar atento à concorrência vale a pena tentar perceber o que terá acontecido para que não tivessem surgido nestas páginas algumas notícias importantes. Eis alguns exemplos: Em Abril avançam as obras nas encostas da Arrábida para prevenir derrocadas, O caso massacre de Ambriz teve desenvolvimento na última semana..., Que balanço da vigília junto ao Convento de Jesus...

1.3  Cartão amarelo

24-Janeiro-2005
Com quantas designações afinal se faz o nome de um clube desportivo, de um partido político, ou mesmo de uma personalidade pública? De que modo devem as notícias ser feitas de forma a encontrar o justo equilíbrio entre a necessidade de informar com rigor e por consequência prestar um serviço informativo de qualidade? A chave para os problemas equacionados terá que passar, forçosamente, pelos modos de construção das notícias, que valores contêm e que impactos podem provocar.

A questão de base desta intervenção do Provedor centra-se numa reclamação trazida por António Rita face à notícia ``Setúbal segue em frente na Taça de Portugal'', de 13 de Janeiro, assinada por Carla Oliveira Esteves. Sublinha o leitor que, no caso referido, o jornal refere-se ao Vitória como o ``Setúbal'', facto que estatutariamente é errado, já que a designação correcta é Vitória Futebol Clube, ou a vulgarmente aceite ``Vitória de Setúbal''. A esta contestação junta-se José Candeia que numa extensa e pedagógica mensagem se manifesta ``indignado'' face à referida utilização que classifica de ``incompreensível e inaceitável''.

Para que haja um melhor entendimento sobre esta questão transcreve-se a primeira frase da notícia, a que deu origem ao protesto: ``O Setúbal passou, ontem, aos oitavos de final da Taça de Portugal ao vencer por 3-1 o Académico de Viseu''. Para além da questão colocada pelos leitores, um outro reparo deve ser feito -- a equipa adversária é sempre designada por ``Académico de Viseu'', sem qualquer desdobramento do nome. Do ponto de vista quantitativo, Carla Oliveira Esteves, refere-se ao Vitória Futebol Clube uma vez como o ``Setúbal'', e o mesmo número em relação às designações ``sadinos'', ``equipa sadina'' e ``equipa de Setúbal''. Por quatro vezes refere ``Vitória'' ao longo do texto. Seguindo o mesmo raciocínio de contagem, a notícia refere por cinco vezes, ``Académico de Viseu''.

Trata-se de um erro, sublinham os leitores. É de facto um erro, reconhece o jornal. Ao fazer mea culpa, a chefia de redacção, considera que existem atenuantes que podem justificar este deslize da repórter. Sendo natural do Barreiro, e pelo facto de muito ocasionalmente acompanhar as questões desportivas e futebolísticas, não se deu conta de que tal tratamento noticioso poderia ``ofender os adeptos vitorianos''. Acrescenta a Direcção do ``Setúbal na Rede'' que, o facto de não ter ``proximidade emocional'', levou a que a notícia tivesse sido escrita sem ter plena ``consciência'' do impacto. E assim sendo, a jornalista acabou por reproduzir o que está ``habituada a ler noutros orgãos''.

A falha apontada e assumida pela redacção e Direcção do jornal, remete a reflexão para algumas ideias que vale a pena sintetizar:

Não existe nenhuma indicação de carácter ético ou deontológico que obrigue o jornalista a referir-se aos clubes, instituições, organizações, etc., pelo modo como estatutariamente são registados. Para além de Vitória Futebol Clube, é perfeitamente admissível utilizar as referências ``sadinos'', ``equipa sadina'', ``equipa de Setúbal'', ``equipa do treinador X'', ``equipa do dirigente Y'';

A não obrigação não deve traduzir-se num refúgio para que os jornalistas interpretem e reproduzam livremente designações de carácter redutor ou abusivo, podendo, ocasionalmente, ferir susceptibilidades;

A utilização de variações de um nome/conceito constitui um requisito técnico da construção noticiosa de modo a facilitar a leitura e a compreensão do texto, funcionando como uma embraiagem do discurso;

As notícias não são boas, nem más (do ponto de vista da natureza, não da qualidade) e muito menos neutras ou sem valor. Bem pelo contrário, a notícia é um género jornalístico complexo que, como se prova pelo seu impacto, deve ter em consideração aspectos fundamentais: a técnica de escrita e o contexto em que se insere (social, desportivo, etc.).

De acordo com a chefia de redacção, foram dadas instruções internas para que se uniformizem alguns procedimentos de rotina. Futuros textos sobre o Vitória Futebol Clube devem respeitar as designações, comummente aceites. Este episódio leva a Direcção do jornal a ponderar a hipótese de integrar esta regra no ``Livro de Estilo [do ``Setúbal na Rede''], uma vez que o portal se assume como defensor das causas da região e considera o Vitória Futebol Clube como sendo uma das causas inquestionáveis do distrito''. ``A prová-lo está o protocolo assinado com o clube no início deste mês'', remata a Direcção. Acrescenta o Provedor que a presença institucional do Vitória Futebol Clube neste site reforça o sentimento anteriormente manifestado. Ponto final.

Post scriptum

Da actualidade informativa da passada semana senti que pelo menos dois assuntos poderiam ter sido levados à estampa electrónica. Não dei por eles nestas páginas virtuais, nem tampouco nas da concorrência. Refiro-me ao voto de confiança de Fernando Negrão à Casa do Gaiato e ao pico de gripes que por estas alturas entope médicos de família e, sobretudo, urgências hospitalares.

1.4  Conta-me estórias

31-Janeiro-2005
O mundo da informação, e mais concretamente das notícias apresenta uma paleta de ofertas criativas que pretende ir ao encontro de diferentes tipos de público. Da notícia, pura e dura às ``estórias'' da actualidade, os jornais desdobram-se em esforços para apresentar múltiplas e variadas abordagens. Que têm em comum as notícias (matéria fundamental de uma publicação), as ``estórias'' (rosto visível da actualidade) e os ângulos de abordagem associados a cada uma delas?

A inquietação desta semana cruza experiências, nem sempre pacíficas, mas com mais valias reconhecidas pelos leitores. Para explorar esta linha de pensamento vale a pena recuar algum tempo, até ao ano 2000, para me situar num estudo por mim realizado que teve por base o ``Setúbal na Rede''. O trabalho intitulado ``A notícia on-line -- impactos da linguagem multimédia no discurso jornalístico'', teve por objecto este portal (na altura, com o estatuto de semanário digital independente) e procurou, entre outras, saber que tipo de conteúdos procura(va) o leitor habitual. De acordo com a oferta então disponível, os resultados revelaram que ``a grande maioria dos utilizadores (40%) elege as informações gerais ao efectuar a leitura do jornal, seguindo-se as informações específicas (19%) e por último a agenda cultural (18%).''. Registava-se ainda que as restantes consultas se distribuíam pela seguinte ordem decrescente: ``classificados (7%), publicidade (6%), fórum (4%) e ainda a contacto com o jornalista via e-mail e consulta de arquivo do jornal, ambos com 3%''.

Os dados de há 5 anos, que provavelmente resistem ao tempo, situam em 50% o número de utilizadores que procura no ``Setúbal na Rede'' informações de carácter genérico (sem conteúdo intencional) e específico (turismo, educação, etc.) sobre a região em que se encontra integrado. Quando nos detemos por alguns momentos na distribuição das notícias pelas várias editorias, constatamos que grande parte se distribui pelo poder local, aspectos da vida social, ambiente, desporto e mundo empresarial.

É justamente aqui que se pretende iniciar um outro ponto de discussão: procurando as notícias do ``Setúbal na Rede'', serem relatos objectivos e rigorosos do sucedido, porque motivo não se cruzam, de vez em quando, com as ``estórias'' que afectivamente conquistam plateias mais amplas?

Vale a pena o parêntesis para situar tecnicamente os dois recursos ao dispor do jornalista: por notícia entendemos o facto actual que é de interesse geral. As estórias derivam das notícias, são por isso secundárias, e constituem o relato com ``rosto'', com ``vida'', olhos nos olhos. Para que o assunto fique mais claro centremo-nos no maremoto no sudeste asiático. Ao relatar o trágico balanço dos acontecimentos as notícias centrais basearam-se no número de vítimas (mortos, feridos e desaparecidos) e só num segundo plano surgiram as notícias paralelas, chamemos-lhe assim. Que se entende então por ``estória'' em termos concretos? A narrativa informativa que nos dá conta da criança britânica de 10 anos que consegue salvar dezenas de vidas porque a lição sobre tsunamis ainda estava bem presente, o relato angustiante da mãe australiana que se vê obrigada a soltar o filho mais velho dos braços, procurando sobreviver com o mais novo, ou o episódio da criança resgatada muitos dias depois do maremoto, vestindo a camisola da selecção de Portugal. É deste modo que, os números são arrancados às estatísticas, e no caso dos sobreviventes, adquirem a dimensão humana, palpável e afectiva que os números jamais conseguem mostrar.

Independentemente da narrativa, ela deve ter princípio, meio e fim. Tudo se deve contar com o pressuposto ``era uma vez'', ``aconteceu de tal modo'' e ``assim terminou''. A ``estória'' revestida de carne e osso, de vida, alegria e sofrimento, constitui uma das mais nobres manifestações da notícia. Neste caso, como em relação à maior parte das coisas da vida, forçosamente, deve ser contada com conta, peso e medida.

O ``Setúbal na Rede'', preocupado que está em dar conta da actualidade informativa do distrito manifesta uma tendência para se posicionar num dos extremos deste binómio. É um portal de notícias, raramente, um espaço de ``estórias''. Pode não ser uma aposta declarada, pode inclusivamente ser fruto de constrangimentos vários. É com certeza uma pena que uma parte da vida latente nas notícias duras, não apareça explicitamente na montra digital. Todos ficávamos a ganhar.

Post-scriptum

A propósito da intervenção desta semana sugiro uma leitura demorada pelo conjunto de textos que Nelson Traquina, Professor da Universidade Nova de Lisboa, compilou em

Jornalismo: questões, teorias e ``estórias'' (Vega). Uma antologia soberba que facilita a vida a quem procura textos fundamentais neste domínio jornalístico. Obra de interesse para estudiosos mas também para o público em geral.

1.5  Ouvi dizer que...

7-Fevereiro-2005
Imagine-se uma terra longe, muito longe, onde o diz-que-disse se instala como uma prática reguladora da actividade social e política. Nesse estado de direito (?), com o seu conjunto de regras e interditos, de direitos e deveres, a mais pequena suspeita sobre alguém transforma-se em título de caixa alta, a letras néon e com extensas linhas de prosa. Um lugar em que a manifestação pública assenta nas primeiras páginas dos jornais, nos ecrãs de televisão ou nas manchetes ditas na rádio. Imagine-se ainda que, na instalada filosofia do ouvi-dizer-que, se incentivam os mais refinados mecanismos de exposição e confronto público com base em boatos e rumores.

Mesmo sem a identificação clara da latitude e longitude deste lugar, facto absolutamente irrelevante para esta reflexão, é possível identificar alguns traços de identidade deste espaço de estranhas convivências e de invulgares formas de sociabilidade:

Os factos e as opiniões

Embora no início do jornalismo esta fronteira não tivesse uma demarcação, com os tempos as matérias de facto e os juízos de opinião têm-se instalado autonomamente. Em todos os orgãos de comunicação social há identificações gráficas entre os dois campos de actuação e no caso dos meios audiovisuais o grafismo é complementado com identificadores sonoros (no caso da rádio) dessas colunas de opinião. Uma prática que também encontramos na linha editorial do ``Setúbal na Rede''.

Quer isto dizer que os géneros têm um estilo e marcas diferenciadoras que devem ser escrupulosamente respeitadas. O factual é do domínio das notícias e das reportagens. O opinativo centra-se nos editoriais, nas crónicas, e claro, no espaço de opinião. Do ponto de vista do género jornalístico, em momento algum os campos factuais e opinativos se devem cruzar, correndo-se o risco de contaminações altamente corrosivas e de efeito nefasto no público e nos visados.

Naturalmente, exceptuam-se as situações em que a construção noticiosa recorre à opinião de um fonte com pertinência para o tema em desenvolvimento. Que fique então claro que aos jornalistas compete apresentar factos com rigor, cabendo o exercício da opinião ao entrevistado ou especialista na matéria.

As opiniões e os rumores

O exercício de opinar é uma forma saudável de intervenção de personalidades com créditos e reconhecimento em várias áreas de especialidade, uma prática institucionalizada nos meios de comunicação social que funciona como o fiel da balança, eternamente desequilibrado.

Figura determinante para o esclarecimento da esfera pública, a opinião, não pode ser vista apenas como função pedagógica e de esclarecimento, mas também como arma de arremesso, instrumento de lobby, mecanismo de influência social. É este o jogo e as regras são claras para todos os envolvidos: media, jornalistas e público. Agora imagine-se que, por entre os dois géneros em análise se intromete uma figura de estilo que, não fazendo parte do enredo, condiciona o xadrez jornalístico, político e social. Os mecanismos associados ao rumor, suportam-se nas mensagens clandestinas ou de autoria encapuzada, visam denegrir a imagem pública de uma personalidade ou instituição, procurando promover alternâncias de poder(es). Tal mecanismo não pode, em momento algum, ser confundido com a livre e saudável expressão opinativa já que os seus modos de actuação fogem à legalidade e à transparência da vida democrática.

Os rumores e os riscos associados

Por absurdo que pareça, imagine-se que a uma redacção chega e se instala um rumor, seja ele qual for e tenha a gravidade que tiver. Obviamente que são (ou devem ser) convocados todos os mecanismos reguladores ao alcance do profissional: códigos, ética, deontologia, legislação, estilo do orgão de comunicação. Não será pela falta de instrumentos de carácter legislativo que o profissional poderá sentir desnorte em decidir o rumo a dar ao telefonema ou conversa informal de corredor.

Para além dos utensílios normativos há que aferir claramente se a matéria em apreço justifica aprofundamento investigativo, por condicionar o debate sobre uma determinada questão com relevância social. Caso haja utilidade pública na divulgação, mandam as regras do jornalismo que sejam convocados fundamentos concretos, fontes absolutamente seguras que sustentem determinado facto.

O rumor assume, quantas vezes, o papel de um rastilho para uma investigação apropriada que pode chegar a lugar nenhum... ou, porventura, desfazer um governo. No tribunal público que erradamente os media se tornaram, o desejo de ``informar'', ou melhor, de ``vender'', justifica que assuntos absolutamente laterais ao interesse público e ao desempenho de funções constitua assunto de proa, manchete maior de um qualquer período de pré-campanha eleitoral. Os riscos para a vida privada e social dos visados e o descrédito de quem publica apresentam-se como consequências evidentes da notícia que nunca chegou a sê-lo.

A responsabilização editorial

Face ao exposto há considerações que merecem ser elencadas, em nome da responsabilidade da redacção: Como afirmava peremptório Ernesto (Che) Guevara ao seu amigo Alberto Granado, durante a longa jornada pela América do Sul, ``Boatos não têm valor científico, há que fazer experiência.'' (Chile, 1952)

Post-scriptum

Títulos -- monotonia editorial -- Embora profissionais e teóricos muito reflictam sobre o que é um bom título, no quotidiano, a síntese de ideias nem sempre surge com rasgos de criatividade. Atente-se na produção da última semana do ``Setúbal na Rede'' para identificar quatro situações que acusam repetições de carácter semântico. No pacote das Legislativas 2005 as entrevistas aos cabeças de lista por Setúbal são apresentadas do seguinte modo:

Nuno Magalhães, cabeça de lista do CDS-PP (e não por lapso apenas PP) é apresentada nestes moldes: ``É preciso diversificar os sectores produtivos do distrito''(01. 02.2005).

A notícia sobre Fernando Rosas, cabeça de lista do Bloco de Esquerda, surge encimada com o título -- ``É preciso mais investimento público em Portugal''(02.02.2005). Basta comparar.

Na mesma linha, e denotando o estilo editorial assumido de transportar para o título e ideia manchete da entrevista, apresentam-se os exemplos de proximidade:

Francisco Lopes, cabeça de lista da CDU -- ``O objectivo da CDU é eleger o quinto deputado em Setúbal''(31.01.2005)

e Fernando Negrão, cabeça de lista do PSD -- ``O PSD quer manter os cinco deputados por Setúbal''31.01.2005).

Bem sei que, de acordo com a lógica institucionalizada pela redacção, foram estas as frases escolhidas e com rigor decalcadas no topo das notícias. No entanto, deve a mesma redacção procurar formas inventivas e diversificadas de apresentar as matérias sob pena de acusar monotonia editorial.


Direito de Resposta -- ``O direito de resposta e a direito à rectificação na Alta Autoridade'' é o tema do último Relatório ao Plenário da Alta Autoridade para a Comunicação Social. Documento sintético e oportuno para entender a evolução e o tratamento dados a esta temática pela comissão especializada do Direito de Resposta. Sugestão de leitura que entronca no assunto central da intervenção desta semana.

1.6  Quando o amanhã é hoje

14-Fevereiro-2005
Antecipar o que vai acontecer é uma das formas de mostrar ao leitor que determinado facto está em marcha e que ele deve estar informado do processo. É um dos mecanismos fundamentais da actividade jornalística e que radica numa agenda consistente, estruturada e interventiva. Quando as redacções são surpreendidas pelos acontecimentos, é sinónimo de que algo correu mal: falhas de comunicação, má gestão no planeamento ou simplesmente desconhecimento.

Seguindo esta linha de pensamento, a reflexão desta semana radica na notícia ``Indesit reúne amanhã com Ministério do Trabalho'' (0.02.2005) assinada por Vera Mariano. Seguindo uma lógica antecipadora da realidade, a redacção do ``Setúbal na Rede'' socorre-se de informação recolhida durante uma concentração junto à fábrica (Praias do Sado-Setúbal) na qual se ficou a saber dos passos seguintes do protesto. Ao entrevistar os protagonistas envolvidos, e porque o episódio daquele dia não lhe pareceu suficientemente sólido para título, resolve destacar informação de agenda, matéria importante no desenrolar dos acontecimentos. Colocando-se numa posição pró-activa, a jornalista revela que a agenda política, social, etc., pode e deve ser rentabilizada do ponto de vista informativo, sempre que se justifique. Ao ter optado pela antevisão, a redacção, simultaneamente, antecipa e condiciona a actualidade.

Este mecanismo é, regra geral, desencadeado tendo por base dois cenários prováveis: pertinência da informação e/ou escassez de notícias. São estas as lógicas para que se antecipem factos, entre tantos outros, que antes mesmo de o serem, já são notícia(!). Esta prática comum a grande parte dos orgãos de comunicação social é assumida com razoável bom senso, mostrando ao leitor que longe de ser um espelho, os media são construtores activos da realidade. A fabricação do quotidiano, como alguns teóricos lhe chamam, impõe formas de recolher, filtrar, tratar e dar a conhecer o que está no fundo da rua, ou no limite, no fim do mundo. Estes mecanismos erguem muros, portas e obstáculos no sentido de escolher como notícia o que se impõe como socialmente útil e relevante.

As referenciadas rotinas de busca, selecção e produção informativa constituem-se como fases decisivas do trabalho redaccional. Os profissionais da comunicação social, trabalham sobre uma base de acontecimentos previsíveis: conferências de imprensa, apresentações de documentos e relatórios, sessões públicas, congressos, etc., etc., etc. Sem este trabalho prévio o oceano informativo é um mar alto sem rumo e sem destino podendo cair-se no absurdo de prever um apresentador de televisão que perante os tele-espectadores diga ``boa noite, hoje não há notícias''. Fora desta rede de previsibilidade encontra-se tudo aquilo que, por motivos óbvios, não é possível antever: atentados terroristas (11 de Setembro), catástrofes naturais (Tsunami, tempestades) e óbitos de natureza súbita. A mais fantástica capacidade de antecipação informativa poderia radicar na ficção de Relatório Minoritário em que, a actualidade se apresentaria em preview, facilitando a intervenção mediática.

A atitude do ``Setúbal na Rede'' inscreve-se na esteira internacionalmente aceite de que, o amanhã pode ser notícia hoje, e por ironia o que vai acontecer no mês que vem ou no próximo ano, poderá ser manchete neste exacto momento. O convite a Durão Barroso para presidir os destinos da Comissão Europeia longe de se esgotar no dia do seu anúncio, teve a capacidade endógena de provocar reacções temporais variáveis, de acordo com os interesses em questão. Foi possível começar a definir uma agenda de inevitáveis consequências políticas imediatas, a médio e longo prazo.

Ora, explica a notícia do portal que a administração da Indesit (ex-Merloni) se vai reunir amanhã (passada sexta-feira) com representantes dos trabalhadores e do Ministério do Trabalho. Objectivo: ``iniciar a fase de negociação e consulta''. Detalha a informação assinada por Vera Mariano que ``A reunião foi marcada para amanhã, às 11:00h, e a partir dessa hora os trabalhadores concentram-se em plenário, à porta da empresa, ``para acompanhar de perto todo o processo''.

Legitimamente o leitor pensará que o interesse manifestado na antecipação deste encontro justificaria o acompanhamento do assunto, para dar a conhecer os seus resultados. Folheamos o ``Setúbal na Rede'' de sexta-feira, dia 11, e nada surge sobre esta matéria. A última notícia publicada tem o registo das 12:12 horas, mas o assunto passa ao lado da produção informativa.

Pergunta por isso o leitor e também o Provedor, o que justifica que a matéria em apreço tenha merecido honras de destaque no título e que depois se tenha desvanecido, esmorecendo a importância previamente atribuída?

Porque motivo foi o leitor estimulado com uma reunião pretensamente importante para o desenrolar do problema que depois não foi alvo de acompanhamento?

Este é um dos sintomas que se regista na comunicação social, em lato senso. Por vezes a ânsia frenética, que não se adapta à situação em apreço, em dar a notícia é de tal modo intensa que, no dia do acontecimento o assunto é internamente assumido como tratado, desaparecendo das prioridades da redacção. É a lógica de que a notícia do dia de hoje, editada ontem, anula o dia do seu acontecimento

No concreto, o que assistimos a semana passada foi uma espécie de aperitivo prévio de uma refeição que não chegou a ser servida.

Esclarece ainda a notícia de que ``A greve será retomada na próxima segunda-feira [hoje], a partir das 08:00h.''

Post-scriptum

E a melhor foto do ano é... -- A tragédia humana causada pelo tsunami no sudeste asiático é o pano de fundo da melhor Foto do Ano 2004, assinalando a 48a edição do World Press Photo. O repórter indiano da Reuters, Arko Datta, fixou uma mulher na praia, com uma das faces encostada à areia, mãos esticadas e viradas para o céu, bem perto de um familiar enterrado na areia, sendo visível apenas um braço. A distinção unânime reconheceu um trabalho notável que, de acordo com o fotógrafo argentino Diego Goldberger, elemento do júri, ``não mostrou centenas de corpos ou cenas de destruição. Escolheu uma composição muito simples, mas muito forte. É um momento de grande intimidade, mas visualmente convincente. Mostra que se pode dar a conhecer a grandeza de um evento através de um detalhe". "Numa boa fotografia pode ouvir-se o som da natureza e o silêncio da dor", defende Goldberger.

1.7  Está aí alguém?

21- Fevereiro-2005
Sensivelmente a meio da minha colaboração enquanto Provedor do Leitor do ``Setúbal na Rede'', achei por bem apresentar duas ou três ideias que me têm feito pensar nas últimas semanas: por um lado a quase ausência de participação por parte dos leitores deste jornal e, por outro, os mecanismos que alguns periódicos têm adoptado no sentido de estimular um papel mais activo daqueles que são a razão de ser de um jornal -- os leitores.

Enquanto Provedor, ou seja, o que se coloca entre o jornal, a redacção e o seu público, sinto um certo alheamento crítico e interventivo por parte deste. Nesta ainda breve experiência, foram duas as mensagens recebidas via correio electrónico e ambas sobre o mesmo tema -- a (errada) identificação do Vitória Futebol Clube numa notícia editada a 13 de Janeiro. Nela se dava conta do descontentamento dos leitores António Rita e José Candeia, pelo facto do clube ter sido denominado por ``O Setúbal''. A pertinente observação obteve resposta por parte do jornal, da redacção e, naturalmente, comentário por parte do seu Provedor.

Depois deste episódio, tem-se instalado um diálogo (demasiado) solitário. Embora nas experiências conhecidas, fundamentalmente, a nível nacional sejam frequentes textos de análise sobre um determinado aspecto da prática jornalística, na maior parte das vezes, são ancorados em questionamentos oportunos dos leitores.

Face a esta constatação procurei perceber os motivos que justificam tal distanciamento, ou melhor dizendo, tal falha de participação nos interesses que longe de serem apenas os do jornal, são acima de tudo, os interesses dos leitores.

Sugiro uma dupla interrogação:

Que estímulos à participação apresentam os jornais com Provedor do Leitor?

Como podem os jornais rentabilizar a participação dos leitores?

O caso que seguidamente é apresentado integra a lista de associados da Organization of News Ombudsmen (ONO). Esta organização de provedores de informação e de programação, congrega internacionalmente, apenas alguns dos orgãos de comunicação social (imprensa, rádio e televisão) que têm a actividade do Provedor.

Vejamos um caso concreto na vizinha Espanha. Josep M. Casacús assume o papel de ``Defensor del Lector'', no jornal La Vanguardia. Este é um caso interessante de como os meios envolvidos poderão funcionar como estímulos à participação crítica. Para além dos contactos habituais de correio electrónico, este periódico disponibiliza uma linha telefónica exclusiva -- ``Los lectores pueden escribir al Defensor por e-mail ó llamar al 93 481 2299''.

Se porventura escrever um e-mail poderá ser uma barreira ao contacto com o Provedor, o acesso via telefone, afirma-se, teoricamente, como um meio rápido, fácil e ``directo''. Deixo, por isso, o repto à Direcção do ``Setúbal na Rede'' no sentido de disponibilizar idêntico acesso telefónico, facilitador do contacto com os seus leitores. O reforço dos meios de comunicação poderá ser visto como um estímulo à saudável intervenção, é pelo menos essa a intuição que tenho, e que mostra no La Vanguardia ser um caso de sucesso. Manda a prudência não comparar realidades diferentes, nem importar modelos sem um pré-teste. Por mim estou disponível a testar esta nova forma de aproximar o jornal dos que habitualmente o têm como referência. Permitam-me manifestar a minha expectativa optimista de que algo possa mudar nas próximas semanas.

Quanto à segunda questão ``Como podem os jornais rentabilizar a participação dos leitores?'', apresentam-se alguns caminhos possíveis. Mas antes disso vale a pena recuperar uma ideia central do primeiro texto assinado pelo Provedor. Convocava na altura uma intervenção de Eugénio Fonseca, membro do Conselho de Opinião deste orgão, que radica na seguinte constatação: ``Surge uma nova forma de pobreza, a ausência de participação por parte dos cidadãos''.

A participação num jornal electrónico assenta em pressupostos vários, de natureza educacional, social e financeira: domínio dos dispositivos, consciência cívica e desejo de participação, acesso a tecnologias de informação. Ultrapassados estes requisitos, apresenta-se como evidente que os jornalistas não fazem notícias para o bel-prazer de ver o seu nome no jornal, mas antes, com o sentido da responsabilidade social, de informar com rigor e isenção. Esta constatação ficará reforçada se da parte dos leitores a intervenção for oportuna, pertinente e merecedora de esclarecimento.

Neste sentido, as sugestões da dupla Nelson Traquina e Mário Mesquita e os contributos de Dan Gillmor são bandeiras importantes para compreender a emergência da participação cidadã.

Nelson Traquina e Mário Mesquita centram as suas propostas na corrente jornalística norte americana que dá nome à obra ``Jornalismo Cívico'' (Livros Horizonte). O livro contempla não só artigos dos autores nacionais, mas também uma antologia de textos mais significativos deste movimento. O ``jornalismo cívico'' ou "jornalismo público" ou "jornalismo comunitário", pretende reforçar a ligação entre os media e os cidadãos, afirmando estes como construtores do jornal e não meros consumidores. Há aqui uma clara ligação entre as pessoas e as causas públicas, sendo o jornalista um actor envolvido de forma explicita. Apresenta-se como uma evidência que estas estão longe de serem propostas pacíficas já que jornalistas, direcções dos orgãos e teóricos, nem sempre têm manifestado sintonia...

Por seu lado, o livro de Gillmor ``Nós, os Media'' (Editorial Presença) elaborado com a ajuda dos leitores entre Abril de 2003 e meados de 2004 é um excelente exemplo de pressupostos teóricos colocados em prática. Nele o colunista de tecnologia do San Jose Mercury News defende o conceito de ``jornalismo de base'' (grassroots journalism) . Este género, chamemos-lhe assim, tem na sua origem as notícias de cidadãos anónimos, que localmente se organizam na defesa de interesses particulares, dando relevo a temas e factos que dificilmente chegam aos media de referência e de expansão em larga escala. O título ``Nós, os media'', acaba por ser uma síntese da mensagem fundamental: cada um de nós pode e deve fazer parte dos meios de comunicação social. Nós somos uma parte dos media, logo, temos que deixar de ser apenas espectadores atentos para passar a actores dinâmicos na construção das notícias que nos estão próximas.

Para além destas referências teóricas encontramos outras formas de rentabilizar a participação dos leitores, mostrando o valor da sua intervenção: quantas vezes os resultados de um inquérito do ``Setúbal na Rede'' foram objecto de notícia, ou âncora para alguma reportagem? A mesma pergunta se pode aplicar aos temas que alimentam quotidianamente o Fórum.

Por último deixo ao Jornal um outro desafio: para quando um espaço que permita o envio, por parte dos leitores, de fotografias e, eventualmente, propostas de trabalho à redacção? O meio electrónico favorece este género de contributos com vantagens em ambos os sentidos.

Post-scriptum

Leitura -- Para saber mais sobre estes assuntos recomenda-se a leitura dos autores referenciados. O livro de Dan Gillmor, ``Nós, os Media'' encontra-se publicado pela Editorial Presença e na internet está disponível o site do autor e dezenas de textos sobre o seu percurso como jornalista e teórico das questões da comunicação, mais concretamente das tecnologias. ``Jornalismo Cívico'' de Nelson Traquina e Mário Mesquita tem a chancela da Livros Horizonte e também na rede é possível consultar a obra de ambos os investigadores bem como alguns textos científicos.


Ainda a Indesit... - A semana passada tinha apresentado uma reflexão sobre a importância da antecipação na cobertura informativa. Nela fazia referência a uma notícia sobre a Indesit que tendo sido antecipada pelo jornal, não foi objecto de desenvolvimento no dia em que vários episódios importantes aconteciam (reunião no ministério, plenário na fábrica). A sequela da notícia surgiu no dia 16 de Fevereiro com o título ``Indesit não cede nos despedimentos colectivos''. Mas na segunda-feira (14) dia em que alguns episódios importantes estavam agendados nada surgiu no jornal. A antecipação tem destas coisas: matar o dia em que os factos acontecem.

1.8  Social-democratas ou sociais-democratas?

28- Fevereiro-2005
O bom uso do português constitui uma das traves mestras da actividade jornalística. A par de uma cultura geral apreciável e, por vezes, uma especialização em determinada editoria, o profissional da informação deve possuir um domínio tão aprofundado quanto possível da língua portuguesa.

Faz parte das regras do contrato entre jornalistas e leitores apresentar informação rigorosa (não vale a pena perdermos tempo com as fragilidades da objectividade), isenta, verdadeira e respeitadora dos preceitos gramaticais. Ora, a questão trazida esta semana pela leitora Natália Abreu sintetiza-se nestes termos -- qual a forma correcta de dizer: social-democratas ou sociais-democratas? Observa a leitora que ``Em duas notícias diferentes do ``Setúbal na Rede'', escritas por duas jornalistas diferentes encontro as seguintes expressões: os "sociais-democratas" e os "social-democratas" referindo-se, obviamente, aos elementos do PSD.''

Antes das explicações, apresentem-se os exemplos concretos a que se refere a leitora:

Com o título ``Presidente da distrital do PSD coloca lugar à disposição'' (21.2.2005) Vera Mariano escreve ``Este foi um dos piores resultados de sempre para os social-democratas, quer a nível nacional, quer distrital''. Noutro momento da notícia lê-se ``No entanto, [Luís Rodrigues]garante que está ``disponível para continuar'', caso essa seja a vontade dos social-democratas''.

O outro caso é assinado por Carla Oliveira Esteves, ``Distrital do PSD satisfeita com demissão de Santana'' (22.2.2005). No seu interior somos confrontados com outra leitura do termo em questão - ``De acordo com vários órgãos de comunicação social, Santana Lopes vai comunicar a decisão de não se recandidatar a líder no próximo congresso, esta tarde, aos sociais-democratas''. Já no rodapé da notícia volta a ser feita a seguinte referência -- ``Os sociais-democratas ``devem combater a demagogia socialista com a verdade e com orientações políticas''''.

Para dar resposta à altura, e tratando-se de matéria complexa, convoca-se a célebre teoria de que se os argumentos não se encontram na ponta da língua então que se consulte quem domine o assunto. Quantas vezes se diz na gíria das redacções que o jornalista não tem que saber tudo, mas tem a obrigação se saber quem sabe.

Estamos perante uma dupla interpretação da formação do plural em adjectivos compostos. Recorrendo a duas referências bibliográficas, Nova gramática do Português Contemporâneo de Celso Cunha e Luís F. Lindley Cintra e ainda ao Novo Prontuário Ortográfico de José Manuel de Castro Pinto, chegamos à seguinte conclusão:

Na formação do plural em adjectivos compostos, como é o caso em apreço, a regra geral indica que apenas o último elemento torna a forma do plural. De acordo com a regra gramatical afigura-se como certa a designação ``os social-democratas''.

A observação da leitora Natália Abreu remete a reflexão para a necessidade não só do bom uso da língua mas também para a padronização de procedimentos numa redacção. Neste caso, o Livro de Estilo do ``Setúbal na Rede'' (em construção), deveria dar resposta a este tipo de questões prementes do quotidiano. Refere a leitora que a questão levantada ``pode mais prender-se com um ponto que pode ser explicado pela existência ou não de um Livro de Estilo, ou seja, uma uniformização da designação a usar por todos os jornalistas do mesmo orgão. Estarei errada?'' Não de todo.

Existem em Portugal alguns bons exemplos editoriais nesta área, como são os casos do Público e da TSF. De ambos fixo duas citações que me parecem oportunas: Vicente Jorge Silva encara o Livro de Estilo do Público (1998) não como ``uma cartilha ou catecismo, mas apenas um conjunto de regras técnicas e deontológicas que se inspiram em critérios de bom senso, bom gosto e rigor profissional.''

João Paulo Meneses apresenta dois motivos que justificam a edição de ``Tudo o que se passa na TSF... para um ``Livro de Estilo'''' -- ``uniformizar e melhorar práticas (ou seja, para consumo interno) e fortalecer a relação com os ouvintes, que encontram aqui uma espécie de descodificador do que ouvem''.

Ao ``Setúbal na Rede'' compete definir as suas regras internas de funcionamento, com um claro objectivo de trabalho: uniformizar regras, técnicas e rotinas. Tal desafio saldar-se-ia como muito positivo para todos os envolvidos: jornal, jornalistas e público.

Post-scriptum

Para aprofundar a resposta apresentada esta semana sugerem-se as seguintes leituras:

Nova gramática do português contemporâneo de Celso Cunha e Luís F. Lindley Cintra (13a edição, Lisboa: João Sá da Costa, 1997, p. 734) e Novo prontuário ortográfico de José Manuel de Castro Pinto (2a edição ver., Lisboa: Plátano, 2000, p. 480).

1.9  Meningite nas notícias?

8- Março -- 2005
As indicações de que havia no Centro Infantil O Ninho, em Setúbal, alegados casos de meningite provocou não só interesse jornalístico mas, sobretudo grande angústia nos familiares e amigos das crianças que frequentam aquela instituição. A forma como o ``Setúbal na Rede'' apresentou os factos revelou, genericamente, sobriedade, responsabilidade e rigor em relação a um assunto de forte impacto social. Este tipo de situação implica uma avaliação séria do que está em causa, uma vez que se trata fundamentalmente, de notícias de risco, já que acarretam consequências directas e indirectas na comunidade local e, nalguns casos, a nível nacional também.

``Menina do Centro Infantil O Ninho não tem meningite'' é o título da notícia editada por Carla Oliveira Esteves (2.3.2005). Pela montra da informação ficávamos já com a certeza de que não se tratava de nenhum caso de meningite, como inicialmente, foi ventilado, o que lhe retirava grande parte da sua carga dramática. Retirava-lhe também, em boa verdade, uma parte substancial da sua razão de ser enquanto notícia já que era desprovida de irregularidade e estranheza.

Várias circunstâncias concorrem, deste modo, para o esclarecimento da notícia: Onde falha a notícia? No meu entender a notícia é breve e pouco esclarecedora do ponto de vista técnico sobre o que envolve a doença. Fica o cidadão comum esclarecido sobre o que é uma meningite? Uma sepsis? O que diferencia uma da outra? Quais os riscos de contrair tais enfermidades? O que se entende por quimioprofilaxia? O que significa uma infecção meningocócica? Ao questionarmos a notícia com estas dúvidas, ela apresenta-se desprovida de alguns fundamentos essenciais: exactidão, esclarecimento, domínio técnico.

Por tudo isto, a situação noticiada inscreve-se, no entender dos teóricos da comunicação e mais concretamente do estudo do jornalismo, naquilo que se designa de ``avaliação de risco no campo dos media''. A este propósito Cristina Ponte refere que ``para compreender notícias sobre risco há que analisar o processo que leva ao aparecimento de riscos nos media, que riscos atraem ou não a atenção e como são construídos''. Os pressupostos desta informação particularmente delicada, que tanto pode ser um surto de meningite como suspeitas de perigosidade sobre o molho inglês, levam a que se desencadeiem mecanismos a vários níveis. Embora seja frequente a revelação de situações várias por parte dos meios de comunicação social, frequentemente as autoridades centrais tomam a atitude de esclarecer o público em relação a determinado assunto. Tendo por base os mecanismos de regulação institucional à escala planetária, a gripe das aves, por exemplo, pode ser acompanhada do ponto de vista epidemiológico, desde a sua origem à contaminação de cidadãos ocidentais (viajantes, contacto indirecto, consumo, etc.). Neste sentido, compete às autoridades nacionais prestar todos os esclarecimentos necessários, procurando clarificar a população.

As questões de saúde pública merecem, sob este ponto de vista, a atenção máxima e a transmissão de alertas internacionais, desencadeados por autoridades de referência a nível mundial. Em termos nacionais, via Ministério da Saúde e Direcção Geral de Saúde, em articulação com a comunicação social, quantas vezes são veiculadas informações de grande pertinência e de forte impacto social, com o objectivo de esclarecer uma eventual epidemia, um medicamento retirado de um mercado estrangeiro ou outra circunstância melindrosa. Numa sociedade globalizada, que vive a grande velocidade e fortemente influenciada pelos media, todo o cuidado é pouco na avaliação de risco de uma determinada informação. A este propósito Ana Cristina Abreu sugere que ``em todas as crises do sector alimentar (BSE, alimentos transgénicos, nitrofuranos entre outras) em que os riscos para a saúde das populações têm sido factor noticioso recorrente, o campo dos media tende a cumprir a sua função de ``democratização do tratamento de risco'', pesem embora todas as reconhecidas desigualdades de acesso ao processo comunicacional''. E quantas vezes, grande parte do pânico associado a este tipo de notícia não reside, justamente, em falhas de comunicação (!).

Post-Scriptum

Leituras -- Aos eventuais interessados na temática das notícias de risco sugerem-se duas leituras: Ascensão e Queda de Notícias de Risco de Jenny Kitzinger e Jacquie Reilly (Cadernos Minerva) e o texto de Ana Cristina Abreu, ``A Experiência do Risco no Campo dos Media''.


Respostas ao Provedor -- Há duas semanas interrogava o Provedor do Leitor a Direcção do jornal no sentido de se adoptarem complementares formas de aproximação dos leitores com o periódico e com o seu Provedor. Uma das ideias passava pelo uso do telefone para facilitar esta relação, facto que mereceu de Pedro Brinca, Director do ``Setúbal na Rede'', a seguinte resposta: ``Todos os contactos [e-mail, telefone] estão disponíveis para que sejam colocadas questões ao Provedor. Mas apenas com o compromisso de que quem atender anotará o recado para reencaminhar ao Provedor. Ora, isso apenas será possível durante o horário de expediente, com o prejuízo das pessoas estarem envolvidas no seu trabalho.'' Entende ainda a Direcção do jornal que ``o contacto por e-mail faz muito mais sentido do que o telefónico, pois enquanto o leitor lê o texto, já tem à sua frente o interface para contactar o jornal. Aliás, essa é uma das maiores virtudes deste tipo de jornalismo, pois o contacto do leitor com a redacção é muito mais facilitado e até apelativo, por estar à distância de um click.''. Aprovada a sugestão, fico a aguardar a sua implementação.

Há quinze dias perguntava ainda ``para quando um espaço em que surjam fotografias e, eventualmente, propostas de trabalho à redacção¿` Responde Pedro Brinca que ``na remodelação recente do site [Janeiro de 2005] estava prevista uma secção de sugestões de trabalhos à redacção. Acabou por não surgir. Até porque estavam ainda por definir os moldes ideais em que deveria funcionar. Além de que os assuntos geralmente sugeridos por leitores exigem alguma pesquisa e investigação e a estrutura do jornal não permite grandes ambições nesse sentido''. Concretiza ainda o responsável pela publicação on-line que "o futuro do jornal passa inevitavelmente por algo parecido com o que se chama de Jornalismo Cívico, onde queremos que os leitores tenham crescentemente um papel importante a desempenhar. O ``Setúbal na Rede'' sempre se afirmou como um projecto em prol da região, pelo que é essencial que a agenda não seja ditada por nós, mas pelos anseios de quem nos lê.''. Aguardamos pelas novidades.

1.10  A importância da imagem

15 - Março -- 2005
A ilustração, a fotografia e a infografia assumem papéis decisivos na construção de um jornal. As imagens revestem-se de extrema importância, fundamentalmente, as que trilham os rumos da fotografia digital, bem como o campo da infografia -- uma espécie de discurso através imagens que compõem uma narrativa.

Desde o início do jornalismo, essencialmente palavroso, que o recurso à imagem se foi impondo de uma forma progressiva. Hoje é altamente improvável, para não dizer mesmo impossível, que uma publicação (papel ou on-line) dispense editorias de fotografia, fotojornalismo e animação computorizada ou, caso não tenha estruturas próprias, que adquira os trabalhos a empresas especializadas (agências, bancos de imagens, etc.).

Como se tem afirmado a fotografia na história da comunicação social? A imagem tem servido ao longo dos tempos para suportar a notícia, a reportagem, a crónica, a opinião, etc., etc. Neste sentido, podemos definir a fotografia no contexto dos media de acordo com os seguintes critérios:

Prova documental -- Se exceptuarmos todas as experiências de manipulação da imagem, a fotografia apresenta-se como a prova de que tal facto aconteceu. E tendo acontecido fica registado em filme fotográfico, sendo uma das marcas fundamentais da história. A fotografia assume-se como documento, imprescindível na leitura dos fenómenos;

Enfoque da notícia -- Não havendo imagens neutras, a fotografia é reveladora de um determinado enfoque técnico e ideológico que orienta as leituras que dela se fazem. O grande plano ou o plano de pormenor, a captação da imagem de cima para baixo (picado) ou o contrário (contra-picado), alteram, em grande parte o sentido dos acontecimentos. A fotografia contextualiza determinado facto de acordo com os parâmetros técnicos, definidos por quem a captou. Deste modo, ela é reveladora de um olhar, e assim deve ter uma leitura relativizada;

Ilustra a informação -- As experiências fotojornalisticas têm provado que o registo fotográfico tem ganho terreno e uma certa autonomia dos meios de comunicação social. Esta conquista encontra o expoente máximo na iniciativa World Press Photo, vista em separado dos media em exposições de reconhecida qualidade técnica e estética. No entanto, a fotografia surge como elemento complementar no âmbito da paginação de um jornal. Não se trata de jogos de subordinação entre texto e imagem, mas de forte cumplicidade temática. Ao ilustrar, a fotografia redobra o impacto da notícia, convocando os leitores de forma mais expressiva.

Carga afectiva e dimensão simbólica -- A fotografia está revestida de uma gigantesca carga afectiva, remetendo por isso, a sua expressão para um jogo simbólico de grande efeito social. Os exemplos do ``11 de Setembro'' ou mesmo do ``Tsunami'' são clarificadores destas facetas incutidas na imagem.

Mas a fotografia é apenas um componente quando se questiona a importância da imagem num meio de comunicação social. A ilustração, de tradição secular, tem espaço garantido na imprensa de todo o mundo, traduzindo-se não só no desenho caricatural, mas também na reconstituição de acontecimentos não presenciados, logo não fotografados. As ilustrações das audiências em tribunal, por exemplo, tornaram-se célebres em todo o mundo.

Nos últimos anos assistimos à emergência de um novo género -- a infografia. O suporte gráfico, na versão em papel, ou animado quando transportado para o on-line, constitui uma das experiências mais interessantes, do ponto de vista técnico (concepção) bem como da fruição dos conteúdos (público leitor). As propostas que surgiram na imprensa para explicar, numa atitude claramente pedagógica, os ataques terroristas em Nova Iorque ou o maremoto no sudeste asiático, são referências incontornáveis desta técnica de informação.

Muito longe nos levaria a reflexão se estendêssemos a folha sobre a fotografia digital, a composição multimédia, a manipulação de imagem. Aqui abria-se um mundo de deslumbramento e inquietação...

Seguramente por força das circunstâncias o ``Setúbal na Rede'' não tem revelado particular atenção à fotografia na oferta de notícias que diariamente apresenta. Apenas uma ínfima percentagem de textos é complementada com o registo fotográfico do acontecimento, dando por isso lugar a um figurino de texto, que vai sucedendo a mais texto, e assim sucessivamente. Também este portal assume a prática de um jornalismo presente-ausente. Presente porque não passa ao lado da actualidade. Ausente porque não a documenta em imagem, e porque na maior parte dos casos não a presencia.

Para além de reforçar a legitimidade da informação, a fotografia é um instrumento com valor histórico mas que não se reduz à clássica expressão: ``para mais tarde recordar''. Sendo o texto o discurso fundamental da experiência jornalística, a fotografia, é a face visível que reforça e atesta a presença de um orgão de comunicação em determinado contexto e lhe reforça a capacidade de intervenção. Na generalidade dos sites e dos portais, este aspecto apresenta lacunas muito significativas. O ``Setúbal na Rede'' não é excepção.

Post-scritpum

O ``Setúbal na Rede'' errou -- A leitora Fátima Cavaco assinala que relativamente à notícia ``Clube de Canoagem de Setúbal esclarece incidente no Sado'' (07-03-2005), ``o veleiro que resgatou os 3 jovens náufragos no passado domingo, é um veleiro português, de nome Carayou, que se encontra na Doca de Recreio das Fontaínhas e que os seus dois tripulantes são moradores na área de Setúbal.''. Escreve a leitora que deve ser reposta a ``verdade dos factos'', facto que mereceu a devida atenção da redacção. Vera Mariano, a jornalista que escreveu aquela notícia, assume tratar-se de uma ``gaffe''. Efectivamente, ``é um veleiro português só que na altura de escrever português escrevi francês. A minha fonte de informação foi o site oficial da Marinha Portuguesa onde confirmei que é um veleiro português''. Está assumido o erro, e corrigida a falha.

1.11  Rápido que se faz tarde

21 - Março -- 2005
Rompendo com uma prática mais ou menos institucionalizada no ``Setúbal na Rede'', a de colocar on-line à segunda-feira a produção informativa ocorrida durante o fim-de-semana, este domingo os leitores foram brindados com a notícia sobre o jogo Vitória -- Benfica. Baseia-se o reparo no pressuposto de que os meios de comunicação on-line, representam um corte com as lógicas de edição clássicas. O dead-line da informação é, desde o início da Internet, um constante desafio.

A notícia em causa ``Vitória de Setúbal facilmente derrotado pelo Benfica'' assinada por Pedro Jones, reúne um conjunto de atributos que me parecem dignos de realce: Mas, não há bela sem senão. Pedro Jones revela neste seu trabalho sintomas que merecem, pelo menos, dois parágrafos: Para além das considerações acima referidas gostaria de colocar um acento particular na especificidade técnica de um meio on-line possibilitar actualizações em permanência, já que o histórica ``hora de fecho'' de edição se tornou uma metáfora permanente.

Mar de Fontcuberta fixa a este propósito a ideia de que ``A periodicidade determina o ritmo de trabalho em todos os meios de comunicação social. Impõe urgências e fixa prazos improrrogáveis. O jornalista trabalha sempre condicionado pelo tempo: as mensagens têm que ser actuais e interessantes para o público até serem substituídas por outras''2.

O que se encontra acima descrito é válido para os media tradicionais, mas fundamentalmente para os media electrónicos. A elasticidade e a exigência da galáxia digital acentuam e actualizam, neste exacto momento, as teses de Philip Schlesinger sobre os constrangimentos provocados pela instância temporal. O novo medium acentua a cronomentalidade dos jornalistas, pois doravante, conteúdos, tempo e velocidade marcam a diferença no jornalismo digital, constituindo as coordenadas fundamentais da prática quotidiana. Porque o tempo se impõe de forma tirânica e ditatorial, o profissional da informação é confrontado com uma exigência estrutural -- o domínio quase absoluto dos timings que tem para cumprir.

A cronomentalidade, defendida por Schlesinger, radica numa cultura do contra-relógio, em que as próprias notícias seriam alvo de uma grelha de classificação. Daí que, falar em spot news, running story, hot news, lastnews, ou mesmo deadnews correspondam a formas de colocar em marcha esta cultura cronometrada.

A edição on-line veio introduzir um elemento altamente perturbador, já que a hora de fecho se traduz agora na hora de fecho permanente, ou no limite, a abertura permanente. Faz tempo que deixou de fazer sentido expressões como a necessidade imperiosa de fechar o jornal ou aguardar pela hora certa para saber das notícias da imprensa escrita, radiofónica ou televisiva

O último episódio da notícia é o que está para vir, ou caso tenha encerrado o seu ciclo, um outro facto está prestes a aparecer na montra electrónica.

Regressando à notícia âncora, os pressupostos de natureza teórica e prática são válidos para o resultado do jogo de futebol, das eleições, da conferência de imprensa ou do imprevisto da calamidade natural. O mundo em continuo e a existência de tecnologia apropriada são os causadores das notícias permanentemente em linha!

2  Provedores dos leitores --cronologia em Portugal

A presente cronologia procura, sempre que possível, identificar o período em que determinado protagonista foi Provedor dos Leitores. Nalguns casos essa informação compreende o dia, mês e ano em que foi editado o primeiro texto, e o último também. Pese embora os contactos havidos com as referidas empresas, não é possível apresentar as indicações completas em relação a todos os casos. David Borges (Agosto de 1992 a 1996)

Francisco Sobral (Janeiro de 1997 a ...) Mário Mesquita (Janeiro de 1997 a 16 Fevereiro de 1998)

Diogo Pires Aurélio (1998 a 2001)

Estrela Serrano (1 de Abril de 2001 a 31 de Março de 2004)

José Carlos Abrantes (Abril de 2004 / ...). Em funções à data deste registo. Jorge Wemans (23 de Fevereiro de 1997 a 1 de Março de 1998)

Joaquim Fidalgo (3 de Outubro de 1999 a 30 de Setembro de 2001)

Joaquim Furtado (Janeiro de 2004 a Janeiro de 2005) Fernando Martins (Fevereiro de 2000 a Setembro de 2003)

Manuel Pinto ( 25 de Janeiro de 2004 a ... ). Em funções à data deste registo. João Palmeiro (4 de Outubro a 27 de Dezembro de 2004)

Ricardo Nunes (10 de Janeiro de 2005 a 28 de Março de 2005)

Brissos Lino (4 de Abril a 27 de Junho de 2005)

3  Favoritos (livros, sites)

Livros

Edição nacional

Fidalgo, Joaquim

Em nome do leitor, Minerva, Coimbra, 2004

Entre Outubro de 1999 e Setembro de 2001 assumiu as funções do (segundo) Provedor do Leitor do jornal Público.

Mata, Maria José

A autocrítica no jornalismo, Minerva, Coimbra, 2002

Trabalho de grande interesse que analisa a figura do ombudsman na imprensa nacional e estrangeira. Registo bibliográfico muito interessante para quem pretende aprofundar a temática.

Mesquita, Mário

O jornalismo em análise -- a coluna do provedor dos leitores, Minerva, Coimbra, 1998

Figura destacada do jornalismo nacional e da investigação sobre os media reúne em livro os seus contributos fundamentais enquanto primeiro Provedor do Leitor do Diário de Notícias.

Wemans, Jorge

O Público em Público -- as colunas do provedor do leitor, Minerva, Coimbra, 1999 Primeiro Provedor do Leitor do jornal Público, entre 1997 e 1998.

Sites

4  Alguns jornais no mundo com Provedor do Leitor

 

Akron Beacon Journal Anniston Star
Arizona Daily Star Atl. Journal-Constitution
Baltimore Sun Boston Globe
Canadian Broadcasting Cedar Rapids Gazette
Charleston Post & Courier Chicago Tribune
Diário de Notícias Die Burger
Detroit Free Press De Volkskrant
El Nacional Florida Times-Union
Folha de S. Paulo Ft. Worth Star-Telegram
France 2 Television France 2 and 3 Television
Freedom Forum Guardian
Hartford Courant Jornal de Notícias
Kansas City Star La Vanguardia
Le Monde Louisville Courier-Journal
Minneapolis Star-Tribune National Public Radio
News and Observer New York Times
O Povo Orlando Sentinel
Oregonian Palm Beach Post
Poughkeepsie Journal Público,
Radio Canada Record
Richmond Times-Dispatch Sabah, Istanbul
Sacramento Bee San Diego Union-Tribune
Salt Lake Tribune Setúbal na Rede
Toronto Star Virginian-Pilot
Washington Post  

 

5  Notícias citadas nos textos do Provedor do Leitor

``Setúbal segue em frente na Taça de Portugal''

(13.01.2005)

O Setúbal passou, ontem, aos oitavos de final da Taça de Portugal ao vencer por 3-1 o Académico de Viseu. Para o presidente do clube, Chumbita Nunes, foi ``um bom jogo'' entre duas equipas de escalões diferentes e onde o Vitória ``conseguiu ganhar sem um grande esforço''. O treinador José Couceiro gostou da arbitragem ``apesar do lance polémico que resultou no único golo do Académico de Viseu''.

Para Chumbita Nunes, o Vitória ``podia ter metido mais golos''. José Couceiro sublinha que os sadinos foram ``a equipa mais forte'' e que ``conseguiu sempre o controlo do jogo''. ``Mérito e qualidade dos jogadores'', frisa. Por isso treinador e presidente já pensam na final do Jamor. Couceiro explica que uma equipa como o Vitória ``tem sempre como objectivo ganhar e chegar à final'', até porque ``só faltam três jogos''.

O jogo ficou marcado por um lance algo polémico, já no período final. O Académico de Viseu beneficiou de uma grande penalidade por a bola ter embatido no braço de Ricardo Chaves. Para Couceiro, ``não houve intencionalidade de jogar a bola com a mão''. O treinador aceita a grande penalidade, mas o cartão amarelo para Ricardo Chaves ``foi excessivo''. Ainda assim, Couceiro faz questão de sublinhar que ``foi apenas um erro'' e que, no geral, a arbitragem ``foi positiva''.

A equipa sadina entrou melhor no jogo e logo aos 12 minutos Bruno Moraes inaugurou o marcador. Depois da expulsão do jogador do Académico de Viseu, Rogério, já na segunda parte, a equipa de Setúbal aproveita a falta de reacção dos homens da casa e bisa. Aos 87 minutos, Jorginho dá a terceira alegria aos adeptos do Vitória. Caju do Académico de Viseu viria a marcar, já no final do jogo por grande penalidade.

Quanto à possível transferência de Jorginho para um clube francês, Chumbita Nunes esclarece que o Caen ``nunca contactou directamente com o Vitória''. O clube soube do interesse ``apenas pelo empresário do jogador''. Entretanto, o Caen desistiu de Jorginho, mas Chumbita Nunes não põe de parte uma eventual transferência, uma vez que o concurso só termina a 31 de Janeiro.
Carla Oliveira Esteves - 13-01-2005 14:59

``Indesit reúne amanhã com Ministério do Trabalho''

(0.02.2005)


A administração da Indesit (ex-Merloni) reúne-se amanhã com representantes dos trabalhadores e do Ministério do Trabalho para ``iniciar a fase de negociação e consulta'', no âmbito do processo de despedimento colectivo. O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Sul, Américo Flor, disse ao ``Setúbal na Rede'' que o sindicato vai apresentar soluções nesta reunião para ``evitar ou reduzir os despedimentos na empresa''.

Os trabalhadores da ex-Merloni concentraram-se, esta manhã, à porta da fábrica localizada em Praias do Sado para ``lutar contra o avanço do processo de despedimento colectivo''. O presidente da Câmara de Setúbal, Carlos de Sousa, o secretário-geral da CGTP, Carvalho da Silva, e representantes do PCP e do Bloco de Esquerda estiveram presentes para demonstrar ``solidariedade'' com esta luta. Garantiram ainda ``fazer todos os esforços para ajudar os trabalhadores em tudo o que for necessário''.

O secretário-geral da CGTP apela aos trabalhadores para ``não desistirem da luta'', pois só assim ``será possível inverter a situação''. Também o presidente da autarquia sadina demonstrou ``grande preocupação'' pelo desaparecimento de uma fábrica que deixa mais de 100 trabalhadores no desemprego. Isto acontece num distrito já ``muito fragilizado pelo encerramento e deslocalização de empresas, ao longo dos últimos anos''.

Depois do plenário, os trabalhadores iniciaram uma greve que foi ``suspensa'' devido à notícia da reunião entre a administração da empresa, representantes dos trabalhadores e o Ministério do Trabalho. A reunião foi marcada para amanhã, às 11:00h, e a partir dessa hora os trabalhadores concentram-se em plenário, à porta da empresa, ``para acompanhar de perto todo o processo''. A greve será retomada na próxima segunda-feira, a partir das 08:00h.

Com esta reunião tem início a fase de negociação e consulta, exigida por lei, em processos de despedimento colectivo. Para além das entidades referidas, o Sindicato dos Metalúrgicos espera ainda que estejam presentes a Segurança Social e o Instituto do Emprego e Formação Profissional. O objectivo é ``chegar a um consenso'' e ``criar condições para evitar ou reduzir os despedimentos na Indesit''. Os representantes dos trabalhadores vão apresentar propostas nesse sentido e Américo Flor espera que a empresa ``mostre boa vontade em negociar''.

Em 2004, os trabalhadores da ex-Merloni ficaram a conhecer o plano de separação do sector de congeladores horizontais. O objectivo da empresa, segundo disse na altura Américo Flor ao ``Setúbal na Rede'' é transferir a produção para o estrangeiro e ``manter apenas uma linha de produção de congeladores horizontais que exigem menos de uma centena de postos de trabalho''. A administração já comunicou ao Ministério das Actividades Económicas e do Trabalho a intenção de proceder a um despedimento colectivo, no prazo de três meses, na fábrica instalada em Praias do Sado. Para o sindicalista, ``nada justifica o encerramento da Merloni'' , até porque se trata de uma fábrica com ``mão-de-obra qualificada''.

Vera Mariano - 10-02-2005 13:54

``Presidente da distrital do PSD coloca lugar à disposição''

(21.2.2005)


O presidente da Comissão Política Distrital do PSD, Luís Rodrigues, colocou o lugar à disposição, depois da ``estrondosa derrota'' que o partido sofreu nas legislativas de ontem. Setúbal seguiu a derrocada nacional e os social-democratas perderam dois deputados. Luís Rodrigues decidiu convocar a assembleia distrital para que ``os militantes decidam se continuam ou não a confiar'' na actual direcção do partido.

Ontem, Pedro Santana Lopes assumiu a total responsabilidade pela derrota do PSD e decidiu, também, convocar um Congresso Extraordinário. Este foi um dos piores resultados de sempre para os social-democratas, quer a nível nacional, quer distrital. Para o responsável da distrital laranja, a vitória do PS ``não foi por mérito de José Sócrates'', mas sim uma manifestação dos eleitores contra o PSD.

Sobre o que terá contribuído para esta ``estrondosa derrota'', Luís Rodrigues não comenta, e recorda ao "Setúbal na Rede" o ``trabalho positivo'' desenvolvido pelo PSD ``em prol do distrito de Setúbal''. Levantaram-se algumas vozes que apontam o dedo à forma como o PSD realizou a campanha e que terá sido um facto decisivo para a derrota. Luís Rodrigues diz apenas que, ``de facto, a campanha poderia ter mostrado sinais positivos'', mas sublinha que ``as eleições não se ganham só pelas campanhas''.

Agora, ``é tempo de olhar em frente'', por isso, Luís Rodrigues, decidiu pedir um ``voto de confiança'' aos militantes do partido. O responsável pela Comissão Política Distrital colocou o lugar à disposição, tendo em conta ``o mau resultado eleitoral'' e o facto de se avizinharem as eleições autárquicas, em Outubro deste ano. É um período em que o PSD ``tem de estar no seu melhor'', por isso pede que os militantes do distrito se pronunciem sobre a continuação ou não da actual direcção. No entanto, garante que está ``disponível para continuar'', caso essa seja a vontade dos social-democratas. Agora, caberá à assembleia distrital decidir sobre a continuação ou não de Luís Rodrigues.

O PSD conseguiu 72 dos 230 mandatos para a Assembleia da República, três dos quais eleitos pelo distrito de Setúbal, ou seja, menos dois do que em 2002. Com 16,1% dos votos, o PSD elegeu Fernando Negrão, Luís Rodrigues e Luís Marques, do Movimento do Partido da Terra, que integrou as listas do partido. O PS venceu as eleições no distrito com 43,7% dos votos (oito mandatos), a CDU obteve o segundo lugar com 19,9% (três mandatos, ou seja, também perdeu dois) e o PSD ficou em terceiro. Em Setúbal perdeu dois o PS foi a força política mais votada nos 13 concelhos.

Vera Mariano - 21-02-2005 15:51

``Distrital do PSD satisfeita com demissão de Santana''

(22.2.2005)


Pedro Santana Lopes vai anunciar, esta tarde, o abandono da liderança do PSD na reunião da Comissão Política Nacional do PSD. Uma decisão que agrada à Comissão Política Distrital de Setúbal cujo presidente, Luís Rodrigues, colocou o lugar à disposição devido aos maus resultados eleitorais. Santana Lopes ``devia ter-se demitido logo a seguir às eleições'', desabafa Luís Rodrigues. Ainda assim, o presidente da distrital fica ``satisfeito'' porque ``a renovação do partido fica facilitada''.

De acordo com vários órgãos de comunicação social, Santana Lopes vai comunicar a decisão de não se recandidatar a líder no próximo congresso, esta tarde, aos sociais-democratas. Luís Rodrigues acredita que a demissão ``é uma condição essencial para a renovação do PSD''. A continuação de Pedro Santana Lopes ``podia condicionar mais este objectivo''.

Já há muitos nomes avançados para possíveis sucessores. Marques Mendes já assumiu que está disponível. O autarca de Vila Nova de Gaia, Luís Filipe Menezes, admite candidatar-se à liderança do PSD. Contudo, a decisão só será tomada depois de conversar com Santana Lopes, uma vez que Filipe Menezes tem ``um grande respeito pelo ainda líder'' e ``não quer fazer nada que o possa contrariar ou magoar''.

Entre estes dois nomes, Luís Rodrigues não tem dúvidas ``em apoiar Marques Mendes'' pois é um candidato ``melhor''. O nome de Manuela Ferreira Leite foi lançado por António Borges. A antiga ministra das Finanças de Durão Barroso esteve contra Santana desde o início e recusou-se a entrar nas listas. No entanto, Luís Rodrigues acredita que Ferreira Leite ``é uma carta fora do barulho''.

Agora, o PSD ``deve preparar uma boa estratégia'' para ser oposição ``acérrima mas positiva e construtiva''. Os sociais-democratas ``devem combater a demagogia socialista com a verdade e com orientações políticas''.

Carla Oliveira Esteves - 22-02-2005 15:48

``Menina do Centro Infantil O Ninho não tem meningite''

(2.3.2005)


Já está afastada a suspeita de um caso de meningite no Centro Infantil O Ninho. De acordo com a directora Maria Paula Fontes, a criança de 11 meses contraiu uma sepsis e, neste momento, ``está a recuperar bem e não corre qualquer perigo''. O estabelecimento está, hoje, em desinfecção e os pais ``estão informados sobre o problema''. As crianças regressam ao centro infantil amanhã. O delegado de saúde de Setúbal, Luís Fonseca, assegura que estão a ser tomadas ``todas as medidas preventivas''.

Os pais de uma menina de 11 meses alertaram, ontem, o centro infantil para o facto da filha ter contraído uma Infecção meningocócica. Contudo, o delegado de saúde de Setúbal explica que a infecção ``não evoluiu para uma meningite, mas sim para uma sepsis''. Ou seja, a infecção ``não atingiu o cérebro da criança, disseminou-se pelo organismo''. ``A menina está a recuperar bem'', garante a directora do centro. Além disso, ``está bem-disposta e palra muito''.

Luís Fonseca explica que está em curso ``o procedimento normal nestas situações''. Neste momento, uma empresa especialista em limpezas ``está a desinfectar o centro a conselho do delegado de saúde''. Maria Paula Fontes sublinha que os pais estão informados e ``calmos''. Até agora, ``não há crianças com sintomas semelhantes'' e, em princípio, o estabelecimento reabrirá ``já amanhã''.

Paralelamente, a delegação de saúde está a fazer uma quimioprofilaxia a todas as pessoas que contactaram com a criança. Luís Fonseca conta que esta é uma forma de ``evitar a transmissão pois elimina todos os agentes portadores''.

A Escola Básica do 1.o ciclo n.o1, na Rua das Areias, fica junto ao centro infantil e usufrui do refeitório daquela instituição. O ``Setúbal na Rede'' pode confirmar, junto da coordenadora da escola, que os alunos não vão almoçar no refeitório, hoje. Contudo, amanhã ``retoma-se a rotina diária do estabelecimento''.

Carla Oliveira Esteves - 02-03-2005 12:05

``Clube de Canoagem de Setúbal esclarece incidente no Sado''

(07-03-2005)


O dirigente do Clube de Canoagem de Setúbal (CCS), João Botelho, garante que os náufragos ontem resgatados no estuário do Sado ``não estão relacionados com nenhuma actividade do CCS''. Ontem, a Polícia Marítima de Setúbal resgatou quatro praticantes de canoagem que naufragaram no estuário, durante uma prova ``organizada pelo Clube Naval de Lisboa (CNL)''. Os jovens, com idades entre 18 e 22 anos, foram transportados para o Hospital de Setúbal com sintomas de hipotermia, mas já se encontram bem de saúde.

Face aos diversos contactos recebidos durante a manhã de hoje, a direcção do CCS decidiu esclarecer que os ``tristes'' acontecimentos ``nada têm a ver com actividades do CCS, nem com actividades de canoagem no âmbito dos Jogos do Sado 2005''. A actividade, ``e não prova de canoagem'', foi organizada pelo CNL, a título particular, e tinha um ``intuito comercial''. Todos os 60 remadores envolvidos na iniciativa vieram na comitiva do CNL e ``nenhum deles pertencia ao Clube de Canoagem de Setúbal''.

João Botelho explica ao ``Setúbal na Rede'' que o estuário do Sado, por ser uma riqueza natural ``bonita e apetecível'', atrai muita gente para a prática do desporto de aventura. Foi isso que trouxe o CNL a Setúbal, ``com a particularidade de quase todos os remadores envolvidos serem inexperientes''. Nestes casos, João Botelho explica que o CCS ``nunca leva mais de 18 pessoas inexperientes para a água''.

O percurso escolhido, entre a Doca do Clube Naval e o Portinho da Arrábida, também era ``demasiado longo para a actividade em causa''. A determinada altura, ``o cansaço e o desespero'' apoderaram-se dos remadores e ``muitos atiraram-se para a água''. Por volta das 20:30h, três pessoas foram localizadas na água por um veleiro português que navegava no estuário, e um quatro participante foi retirado da água cinco minutos depois por uma embarcação da Polícia Marítima. Todos tinham sintomas de hipotermia.

Segundo o site oficial da Marinha Portuguesa, a entidade ``accionou os meios de resgate pelas 19h30'', depois de ter recebido um telefonema dando conta do desaparecimento de quatro pessoas. De acordo com a Marinha, a actividade ``foi organizada sem autorização ou conhecimento das autoridades marítimas de Setúbal''. Sobre esta questão, João Botelho esclarece que ``todas as provas e actividades realizadas pelo Clube de Canoagem de Setúbal são sempre objecto de comunicação e solicitação de autorização e apoio junto das entidades competentes''. Os quatro náufragos passaram a noite no Hospital de São Bernardo ``para observação'', mas já se encontram bem.

Vera Mariano - 07-03-2005 17:09

``Vitória de Setúbal facilmente derrotado pelo Benfica''

(20.03.2005)

Este fim de semana o Vitória de Setúbal recebeu e perdeu com o Benfica por duas bolas a zero. Os sadinos já não ganham para a SuperLiga desde Janeiro e somam assim a 10 derrota no campeonato. José Rachão foi muito contestado no final da partida mas o técnico adianta que `` nunca'' irá ``desistir'' e que dará ``sempre o peito às balas''. O treinador sadino considera que o Benfica está num ``bom momento de forma'' e que é uma equipa ``moralizada para ganhar o campeonato''.

Local: Estádio do Bonfim, Setúbal

Árbitro: João Vilas Boas

Vitória F. C.: Paulo Ribeiro; Manuel José (Ricardo Pessoa, 73'), Hugo Alcântara, Auri e Veríssimo; Sandro, Ricardo Chaves (José Rui, 71') e Bruno Ribeiro; Bruno Moraes, Jorginho e Meyong (Binho, 46')

Treinador: José Rachão

Disciplina: vermelho directo aos 27 minutos para Veríssimo

Benfica: Quim; Miguel, Luisão, Ricardo Rocha e Dos Santos; Geovanni, Petit (Bruno Aguiar, 3'), Manuel Fernandes e Simão; Nuno Assis (João Pereira, 87') e Karadas (Mantorras, 90')

Treinador: Giovanni Trapattoni

Disciplina: amarelo aos 41 minutos para Manuel Fernandes e aos 62 para Ricardo Rocha

Golos:
0-1 -- Manuel Fernandes (43')
0-2 -- Geovani (64')

Na opinião do treinador do Vitória, a equipa sadina ``apostou no jogo''. Rachão considera que ``o Vitória entrou nitidamente para ganhar ao Benfica'' e controlou o ``primeiro quarto de hora'' de jogo. Segundo o técnico o Benfica, ``tirando os golos que fez'', ``não criou muitas oportunidades'' de concretizar. O facto de jogar com 10 unidades ``dificultou ainda mais'' o jogo, que ``já era complicado desde o início''.

Mesmo depois da expulsão do Veríssimo o Vitória ``não baixou os braços e até podia ter chegado ao golo'', salienta José Rachão. No entanto o Benfica chegou à vantagem e ``as coisas tornaram-se mais difíceis''. O treinador sadino considera que a equipa ``baixou os braços no último quarto de hora'' e que ``nada têm saído bem''.

Giovanni Trapattoni estava ``satisfeito'' com o resultado e garantiu que ``era importante'' ganhar ao Vitória. O técnico benfiquista considera que a primeira parte foi algo ``difícil'' porque o Vitória ``criou algumas situações'' em que podia ter chegado à vantagem. O Benfica teve ``um pouco de sorte com expulsão do Veríssimo'', que ``deu muita confiança'' aos encarnados. Depois do ``bom golo'' de Manuel Fernandes a equipa ``começou a encarar o jogo com boa personalidade, à procura de algo mais'', referiu Trapatoni.

No Bonfim o Vitória comandado por José Rachão procurava o primeiro triunfo na SuperLiga, enquanto que o Benfica vinha a Setúbal com o objectivo de cimentar o primeiro lugar. Numa casa bem composta cerca de 19 mil pessoas esperavam um bom espectáculo. Estavam decorridos apenas três minutos e o Benfica foi obrigado a mexer na equipa. Petit saiu lesionado, com algumas dificuldades respiratórias, e entrou para o seu lugar Bruno Aguiar.

O primeiro quarto de hora foi dominado pelo Vitória. Aos 7 minutos, na marcação de um pontapé de canto os sadinos estiveram perto de chegar ao golo. Um minuto depois, foi a vez de Jorginho num grande remate, de fora da área, proporcionar a Quim uma defesa muito complicada para canto. Aos 12 minutos o defesa Hugo Alcântara subiu e rematou forte com a bola passar muito perto do poste de Quim.

Aos 13 minutos da primeira parte foi a vez do Benfica chegar à baliza do Vitória com algum perigo. Dos Santos efectuo um cruzamento na esquerda e a bola ainda embateu na barra da baliza defendida por Paulo Ribeiro. Minutos depois deu-se o caso do jogo. Nuno Assis isolou Geovani que entrou na área e foi derrubado por Paulo Ribeiro. Ficou por assinalar uma grande penalidade contra o Vitória de Setúbal.

Quase sobre a meia hora de jogo o Vitória ficou reduzido a 10 unidades. Veríssimo, aparentemente com um lance controlado, deixou-se antecipar por Simão e depois travou em falta o avançado Benfiquista que seguia isolado para a baliza. João Vilas Boas exibiu o cartão vermelho directo ao defesa sadino.

O Vitória só voltou a subir no terreno praticamente sobre o final da primeira parte. Numa bonita jogada desenvolvida pelos sadinos Jorginho ganhou a bola no meio campo e deixou para Bruno Ribeiro descaído na esquerda que cruzou para o bom remate de cabeça de Bruno Moraes. No entanto a bola foi mal direccionada e passou ao lado da baliza.

A dois minutos do final do primeiro tempo a equipa encarnada chegou ao golo. A cerca de 20 metros da baliza, Manuel Fernandes rematou forte para o golo do Benfica, num lance em que Paulo Ribeiro não está isento de culpas. Pouco depois terminava a primeira parte e o Benfica seguia para as cabines em vantagem no marcador.

No segundo tempo foi o Benfica que entrou melhor. A equipa visitante continuava a comandar o jogo enquanto que o Vitória estava um pouco apático, demonstrava ser uma equipa desmotivada e muito desconfortada.

No primeiro lance de perigo para a baliza de Paulo Ribeiro o Benfica voltou a marcar. Miguel cruzou na esquerda e Auri efectuou mal o corte. A bola ressaltou para Geovani que, de fora da área, bateu sem dificuldade o guardião sadino. O Vitória estava muito mal defensivamente, e o Benfica atacava com a equipa toda, a jogar no meio campo vitoriano.

A 10 minutos do final da partida muito público afecto ao Vitória começou a abandonar as bancadas do Bonfim. Em cima do apito final foi o Benfica a criar novamente perigo. O recém entrado João Pereira à entrada da área rematou forte e a bola passou muito perto do poste da baliza defendida por Paulo Ribeiro.

Rachão contestado pelos adeptos

Antes de terminar a partida muitos adeptos do Vitória começavam a abandonar as bancadas do Bonfim a acenar com lenços brancos a José Rachão. O técnico ainda não venceu para a SuperLiga e tem sido alvo algumas contestações e o mesmo aconteceu durante e no final da partida frente ao Benfica, devido às substituições que efectuou.

O técnico não gosta de falar em ``azar ou sorte'' no futebol, mas fala em ``infelicidade''. José Rachão considera a situação que vive no Vitória ``normal'' e que ``acontece em todo o lado''. O técnico voltou a ``dar a cara'' pelo ``grupo de trabalho que tem muita qualidade''. Quanto às substituições de Ricardo Chaves e Manuel José, Rachão refere que foram os ``próprios'' jogadores a pedirem, e que ``as pessoas não conseguem entender isso''.

``O objectivo do Vitória é ficar na SuperLiga'' , mas o técnico voltou a referir que ``é importante a equipa obter já os 4 ou 5 pontos'' que necessita para poder ``encarar a meia-final da Taça de Portugal com outra atitude''.

Pedro Jones - 20-03-2005 01:55

6  Anexo - Estatuto do Provedor do Leitor no Setúbal na Rede

Preâmbulo

O ``Setúbal na Rede'' decidiu institucionalizar o cargo de Provedor do Leitor na sequência lógica do seu percurso pioneiro, enquanto primeiro jornal digital do país, em que tem assumido a sua função de órgão de comunicação social numa perspectiva de agente de desenvolvimento da região onde se insere.

Por trabalhar em prol de uma comunidade impõe que se estabeleça como sua representante, fazendo a síntese dos interesses regionais, assumindo causas, mas criando condições para a divulgação dos diferentes pontos de vista. 

Esta atitude, já visível na cultura de exigência, rigor e profissionalismo do trabalho editorial desenvolvido, exige que se aumente à capacidade crítica e se chame o leitor a um papel também mais participativo. Na sequência de vários espaços interactivos já existentes ou a criar, em que o leitor do ``Setúbal na Rede'' é chamado a exercer o seu direito de cidadania, passa agora a dispor da figura do Provedor do Leitor, que funcionará essencialmente como mediador entre os produtores das notícias e os seus destinatários.

A principal missão do Provedor do Leitor consiste em atender às reclamações, dúvidas e sugestões dos leitores e em proceder à análise regular do jornal, formulando críticas e recomendações.

A intervenção do Provedor do Leitor processa-se sempre a posteriori, pelo que não integra qualquer órgão com funções executivas da empresa ou do jornal e nessa qualidade não participa em reuniões que se destinem a planificar edições ou iniciativas do jornal.

O presente estatuto visa garantir a independência do provedor perante a Direcção e Redacção do jornal, indispensável ao bom exercício da sua missão.

Estatuto

  1. O Provedor do Leitor do ``Setúbal na Rede'' é uma entidade independente que tem por missão assegurar a defesa dos direitos dos leitores.

  2. Compete ao Provedor do Leitor:

  3. Analisar as reclamações, dúvidas e sugestões formuladas por escrito pelos leitores.

  4. Analisar e criticar aspectos do funcionamento e do discurso dos media que se possam repercutir nas reclamações com os respectivos destinatários.

  5. O Provedor do Leitor exerce a função crítica através da secção semanal que publica à segunda-feira no ``Setúbal na Rede'' e, em casos excepcionais, da inserção pontual de textos e de recomendações internas dirigidas à Direcção.

  6. No exercício das suas funções, o Provedor do Leitor pode solicitar à Administração, à Direcção, aos editores e aos jornalistas, esclarecimentos sobre questões com incidência ética e deontológica, os quais devem ser prestados, por escrito, no prazo de 36 horas.

  7. As tomadas de posição do Provedor do Leitor sobre textos assinados por jornalistas devem ser precedidas de esclarecimento prévio do respectivo autor ou, na ausência deste, o director ou quem este indigitar.

  8. . O director do ``Setúbal na Rede'' indigitará, em sintonia com o Conselho de Opinião, uma personalidade de reconhecido prestígio, credibilidade e honestidade para o cargo de Provedor do Leitor.

  9. A nomeação do Provedor do Leitor vigora por um período de 3 (três) meses, não prorrogáveis mas interpeláveis.

  10. As funções do Provedor do Leitor cessam:

  11. Por iniciativa do próprio Provedor do Leitor.

  12. Pelo não exercício durante um período superior a duas semanas.

  13. Será celebrado um contrato entre o titular do cargo de Provedor do Leitor e a empresa jornalística proprietária do ``Setúbal na Rede'', com vista a garantir o cumprimento deste estatuto e especificar as condições de exercício do cargo.

  14. O Código Deontológico do Jornalista, o Estatuto Editorial e o Livro de Estilo do ``Setúbal na Rede'', do qual este estatuto passa a constituir parte integrante, são referências obrigatórias do Provedor dos Leitores.

1
Mestre em Ciências da Comunicação. Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal.
2
FONTCUBERTA, Mar de, A Notícia -- pistas para compreender o mundo, Lisboa, Editorial Notícias, 1999, p. 19.