José Bragança de Miranda, Universidade Nova de Lisboa
«Abomino todos os modos de vida» Rimbaud
Em 1921 é publicada a peça Die Schwärmer de
Roberto Musil. Só em 1929 é representada pela primeira vez,
saldando-se por um rotundo fracasso, normalmente atribuído à
má qualidade da encenação, contra a qual ele protestou
vigorosamente. Tudo indica que o motivo era outro, que tem a ver com a
radicalidade do projecto de Musil, claramente em excesso sobre a sua época.
Ou ainda, em excesso sobre toda e qualquer época, por razões
que tentaremos expor.
Não por acaso a dificuldade começa no título,
traduzido em francês por «exaltados», em português
por «os visionários» e em espanhol pelos «alucinados».
Diferentes como são, todos indicam um excesso, que aprece ter com
a «alma», com as paixões. Será este aspecto que
interrogaremos, convictos de que algo de vital se joga neste assunto. Para
quem lê a peça, ou vê o filme, parece tingida de uma
coloração apocalíptica que distorce a sua novidade.
É já um lugar comum descrever Musil como o «romancista
da desintegração da sociedade hierárquica e da cultura
liberal-racional austríacas», a chamada cultura de fim de
século (Schorske, 336), que Broch descreveu como um «apocalipse
alegre», que seria a forma dos austríacos viverem o nihilismo
(Broch). E é justamente o fenómeno do nihilismo que afecta
Musil e a sua obra. Na medida em que o nihilismo destrói toda a
estabilidade, desintegra todas as formas, revelando-as como fundadas em
nada ou na linguagem1, tem de pôr em causa a escrita
que o procura descrever. O mesmo já ocorrera com Nietzsche. Inevitavelmente
tudo se enreda em paradoxos inextricáveis: em Nietzsche temos a
«morte da imortalidade (Deus)», no caso de Musil »o incumprimento
do cumprido».
O recitadíssimo inacabamento do livro O Homem sem Qualidades
é indicativa desta situação impossível, mas
necessária. Mas Musil é um autor que se rebela contra o nihilismo,
pois este recusa todo o existente como ilegítimo; mas também
resiste às tentativas de ocultá-lo sobre valores, teorias
e instituições, que afinal apenas o agravam o que pretendem
solucionar. Nos nossos dias, onde o alegre apocalipse se generalizou mal
podemos entrever o que está a acontecer. O estranho desta obra é
que aceita posicionar-se neste limiar tão estreito entre o que é
e aquilo que poderia ser. O que parece exigir uma «alma» especial,
todo o problema se resumindo a saber se existem homens capazes de afrontar
o vazio, ou melhor, a vertigem do vazio da era moderna, sem nele se despenharem2.
Com a sua ironia fria e metódica Musil experimentará
sobre si mesmo, através da sua escrita, esta nova situação.
Por exemplo, em O Homem sem Qualidades a certo momento o peculiar
herói que é Ulrich, reflecte sobre frase de um artigo desportivo,
em que o articulista fala de «um cavalo de corridas genial».
Para Ulrich isso afectava «toda a história do mundo»,
e extrai daí as consequências com que começa o seu
desprendimento de todas as qualidades ou atributos. Decide então
abandonar a sua carreira de matemático e toda a pretensão
à genialidade, transformando-se num homem sem atributos3.
Este é simultaneamente um homem das possibilidades - porque aceitar
ser isto ou aquilo quando se pode ser sempre outra coisa, mas também
em resistente às particularidades de um mundo em que os cavalos
podem ser geniais, e onde quem pretenda ao génio tem de entrar em
corridas com esse tipo de atributos.
Ora, o homem moderno é sem atributos porque é realidade
que os tem todos. Ou na esplêndida formulação de Jean-François
Peyret, porque se criou «um mundo de qualidades sem homem»
(Peyret: 858). O que daria sentido à bem enigmática frase
cintilante de Musil sobre «as experiências vividas sem que
ninguém as viva». No fundo Musil está à procura
do humano para esse mundo novo4. As qualidades cristalizaram-se,
sem o poderem fazer: e cada um cai na figura particular do professor ou
do operário ou do empregado, ou em ideias de todo o género,
mas ninguém consegue viver neles e com isso o que a vida tem de
dissonante, de criativo e de espontâneo sofre e em contragolpe o
ressentimento tudo destrói.
A peça Die Schwärmer está claramente no caminho
que levará à experiência radical do HSQ, sendo porém
difícil dizer se o seu acabamento se explica pelas mesmas razões
do inacabamento da segunda. Embora em 1923 Musil considerasse esta peça
como «o ponto culminante» da sua obra (cit Jacottet: 315),
não parece oferecer dúvidas que fica aquém do HSQ,
embora o seu acabamento seja instrutivo: se é mais sistemática
nos problemas que coloca, é também mais regressiva do ponto
de vista da escrita. Isso ressalta da tabela de oposições
com que interpreta, pelos mesmos anos, a rede que subtende a peça:
o da oposição entre «pessoas criativas» e «não
criativas», sendo as primeiras determinadas, entre outras características,
pela sua indeterminação, solidão, passividade, irrequietude
e desprezo do mundo, mas também dos ideais e das ilusões,
enquanto as outras são determinadas pelas tendências inversas
(Scheidl: 48).
Tomadas assim as coisas tudo é demasiado abstracto, o que explicaria
algumas debilidades da obra, que o próprio reconhece, acusando a
fadiga da sua leitura. Este esquematismo está presente nas personagens
da peça, pontuando-a de forma rígida. O que leva, entre outros,
Ludwig Sheidl a considerar que estamos em presença da oposição
de dois mundos: «o da normalidade e moralidade estabelecida»
representado por Josef, Menina Mertens e o detective Stader e «o
mundo dos visionários, caracterizados pelo desespero de existir,
pela inquietação interior e (como forma de compensação)
por um forte erotismo» (representados pelas outras personagens).
Sendo verosímil, parece insuficiente, nomeadamente quanto às
personagens femininas que parecem mais ser mediadoras entre os dois mundos
que rigidamente inscritas em qualquer deles. Na verdade trata-se de uma
analítica das «psicopatologias» provocadas pela hybris
moderna, onde a oposição essencial é entre a infância
como abertura dos possíveis e a sua destruição pela
realidade e pelos próprios na idade adulta. Mas não apenas
provocada por «estes visionários inadaptados às leis
do mundo é o facto de quererem preservar a inocência da infância»
(Scheidl: 31), vivendo numa utopia do «outro estado». «Exaltados»
ou «visionários» são todos os personagens, uns
ébrios de moral, como a Menina Mertens, e razão como Josef
e outros de erotismo como Regina ou da lucidez cínica como Thomas.
Apaixonados todos eles, sem saberem que fazer dessas paixões. Mas
tentando fazer algo. Mais do que a recusa decadentista do mundo racional
da burguesia tudo assenta na resposta criativa ou não criativa ao
mundo moderno na sua radical problematicidade: sem poder fundar as qualidades
e vivendo dessas qualidades. O que leva à mediocridade, à
negação da vida, mas também à violência
e à morte.
A famosa psicologia de Musil, que não é nenhuma psicologia,
é basicamente a tentativa de compreender a crise geral como psicopatológica:
«os psicopatas estão no seu elemento e dão largas à
sua euforia» (cit Scheidl: 20). Na era moderna ninguém escapa
a esta situação. Por trás parecem haver motivos históricos,
mas é esta afecção geral do espírito que o
preocupa, que é também uma doença das palavras: «o
abuso que foi feito destas palavras: pensamento, ideia, espírito,
deu-lhes má reputação» (Musil, 324). Contra
a velha desqualificação racionalista das paixões,
rememorando a peça anterior, ele considera num esboço de
prefácio para o livro Obras Pré-póstumas que as «paixões
não produzem um movimento no plano causal, mas na substância
do ser» (cit Jacottet: 327). Daí que a peça construa
um mundo em mosaico, que é justamente o «mundo das qualidades
sem homens», e entre essas qualidades contam-se as paixões.
Na melhor das hipóteses os personagens seriam moduladores de paixões
, como uma espécie de sintetizadores musicais que jogam livremente
no continuum de cada paixão, que se encarregam de fazer ressoar,
que oferecem carne e espírito como mediadores, mas em que a maioria
não está preparada para afrontar. Terrível isolamento,
que faz com que as personagens nunca se chegam a tocar, por mais promíscuas
que sejam, por mais que habitem a mesma casa. Com o seu faro de poeta excelente
Jacottet diz o essencial: «Tem-se o sentimento de que as personagens
principais tocam um quator de pensamentos e de paixões, de pensamentos
paixões, que exige, para se fazer ouvir, instrumentistas excepcionais.
E as variações de ritmo, de sonoridade e de intensidade deste
contraponto dramático deveriam, como em toda a música elevada,
fazer-nos entrever, lamentar a ausência ou esperar ainda um outro
espaço» (Jacottet: 339).
Estamos perante um movimento em dissonância, que não está
longe do serialismo de outro vienense, Schönberg, onde o essencial
é essa modulação da paixão por seres que acabam
por ser demasiado fracos para essa tarefa. Mas que a cumprem apesar de
si mesmos e das suas debilidades. Por exemplo, Regina, a personagem feminina
decisiva, grita sem parar no segundo acto, o que é descrito assim:
«ela também não acredita que faça sentido gritar.
Fá-lo apenas» (Musil, 1921: 123). Mas por outro lado, na infância
ela cantava: «em criança acreditava com convicção
que um dia teria uma voz magnífica» (ib. 149). Mais do que
oposição entre voz e grito, há um fluxo de intensidades
que pode ser grito e voz, mas que é voz-grito. Melhor exemplo dessa
modulação da paixão não existe. Sabe-se que
Musil é
acusado de cair em dualismos, puramente cerebrais, crítica
que lhe endereçou Broch, a que respondia que os mistérios
da dualidade não são menores que os mistérios trinitários.
Daí que seja frequentemente acusado de procurar resolver a oposição
entre sentimento e razão, de que ele reconhece o «desequilíbrio».
Mas como se depreende da análise, não é nada disso.
Trata-se de percursos de intensidades tornados necessários por um
mundo onde tudo está em movimento, e em que cada acto implica uma
queda no particular, que já está aí, indepentemente
de qualquer escolha. Cada um é obrigado a modular a intensidade
dos possíveis dentro de cada figura. E isso não é
fácil, é mesmo o mais difícil. Parece-me ser esta
a intuição profunda de Musil. Como não podemos desenvolver
mais o assunto, refiramos apenas que nos «aforismos» apresenta
a fórmula paradoxal de ideia-afecção. Quando diz que
«o homem é movido, governado pelas afecções
e as ideias» (Musil, 1978: 537) parece distingui-las, mas de facto
são indiscerníveis, cada figura, cada qualidade ou atributo
é uma tensão de intensidades, e estas são ao mesmo
tempo ideia-afecção5. A crise individual,
e a do mundo, vem da quebra da tensão, com o que se desemboca-se
num mundo dos homens sensíveis e dos homens racionais, todos perdidos,
e destruíndo-se a si mesmo e ao mundo. Só que não
há paixões «mudas», infiguradas, pois elas são
indissociáveis da «ideia», da figuração.
Diz ele: «representação: famílias de pensamentos
condicionados por uma afecção dominante, encadeamento de
pensamentos típicos: em suma, o comportamento intelectual no seu
conjunto, mas no interior de certos limites impostos pelas contingências.
Visando menos esse comportamento que o seu conteúdo» (ib.
537). Trata-se de modular a intensidade que está contida em cada
figura, e esse é um trabalho individual. às vezes parece
hesitar, como quando defende que «a política manipula a afectividade,
enquanto a arte a educa» (ib. 560). Seja como for, o teatro deveria
agenciá-la na relação ao mundo. Só que o teatro
de Musil nunca chegou a ser compreendido. Talvez mesmo tenha ultrapassado
o próprio autor, que pretenderia uma obra «escrita para introduzir
finalmente o pensamento nos conflitos dramáticos» (cit. Jacottet:
317). Mas fez bem mais do que isso. Algures Musil afirma que visa o espectador
solitário e não enquanto categoria geral. O que comprova
que está em causa algo mais radical. É evidente, pelo menos
para mim, que Musil procura uma nova «psicagogia», bem mais
necessária para a nossa época, do que para a sua, mas que
é uma condição de modernidade. Hoje quando os serial
killers merecem honras, ou os canibais comem simpaticamente os maus como
ocorre no Silêncio dos Inocentes, o esforço musiliano parece
mais preciso. Mas não nos enganemos, não se trata de «psicologia»,
mas de mestria da alma, da psyché no sentido grego.
É interessante verificar que o imperativo em acto nesta obra
fascinante se encontra também em autores como Foucault, com a sua
«estética da existência», ou em Patocka, o filósofo
checo, até mesmo por um Pierre Hadot. Musil e a sua peça
podem ser lidos hoje de outra maneira, agora que o nihilismo se realizou
a ponto de ter tornado familiar, e onde as intensidades, as «paixões»
no sentido musiliano, são usadas pela técnica a tal ponto
que, mais do nunca, parecem faltar humanos capazes de modular as forças
que invadem todas as figuras, qualidades e atributos. Completado o arco
do século, talvez hoje seja menos preciso destruir as qualidades
do homem, elas estão a ser destruídas pela vorágine
da técnica, do que introduzir o humano no mundo das qualidades,
cada vez mais inumanas. Deste ponto de vista Musil é o mestre da
nova psyché que todos procuramos sem o sabermos.
BIBLIOGRAFIA MUSIL, Robert (1921) - Die Schwärmer (ed ut. Les Éxaltés, Paris, Seuil, 1985, tradição e notas de Ph. Jacottet) MUSIL, Robert (1921) - Die Schwärmer (ed ut. Os Visionários, Coimbra, Minerva, 1989, tradução e notas de Ludwig Scheidl). MUSIL, Robert (1978) - Essais (or. Prosa und Stücke), Paris, Seuil, 1984. MUSIL. Robert (1952) - O Homem sem Qualidades (or. Die Mann Ohne Eigenschaften), Lisboa, Livros do Brasil.
BLANCHOT, Maurice (1959) - «Musil» in Le Livre à Venir, Paris, Gallimard. BROCH, Hermann (1955) - Création Littéraire et Connaissance (or. Dichten und Rekennen), Paris, Gallimard, 1966. CALASSO, Roberto (1991) - Los Cuarenta y Nueve Escalones (or. I Quarentanove Gradini), Barcelona, Anagrama, 1994. MAGRIS, Claudio (1984) - «La vie dans le vide» in MAGAZINE LITTÉRAIRE, 1984, 182, pp.33-36. PEYRET, Jean-François (1975) - «Musil ou les contradictions de la modernité» in CRITIQUE, 339-340, 1975, pp.846-862. SCHORSKE, Carl E. (1979) - Viena Fin-de-Siècle, São Paulo, Companhia das Letras, 1988.
1- Como diz Blanchot num dos primeiros textos franceses sobre Musil, o que é «secretamente dramático é de saber se a cultura pode alcançar um valor último ou se não pode fazer mais do que desdobrar-se gloriosamente no vazio contra o qual nos protege, dissimulando-o» (Blanchot: 22).
2- Como o mostra uma anotação de 1921 intitulada «teatro e romance de ilusão» o que está em causa é uma certa idealização que faz com que os jovens caam «no âmbito das ilusões de individuação, do anti-social e cada um, que encontra a sua expressão na força ilusória do mal absoluto» (Scheidl: 49). A realização das possibilidades da «juventude» é demasiado predatória e destruidora, fazendo com que «tudo culmine num grande incêndio» (ib. 49). É um paradoxo da possibilidade, mas que não tem solução.
3- Roberto Calasso, com o seu espírito certeiro, faz desta estória um enigma, «como se chegou a esta singular normalidade? Quantos séculos e milénios de história se ocultam por trás da invenção do jornalista desportivo ou do publicitário?» (396).
4- Tudo indica que para Musil o que falta é o humano, com o que se inscreve numa longa série da nossa cultura. Tal como na Grécia Diógenes andava com uma candeia à procura de um Homem, ou como o louco de Nietzsche andava à procura de Deus com uma lantera em plena cidade, Musil anda à procura do humano, capaz de afrontar os novos tempos.
5- Como diz sobre si próprio: «tão
conhecido quanto desconhecido, o que não significa meio conhecido,
antes produz uma mistura bizarra» (cit. Blacnhot: 22).