(c) Edmundo Cordeiro, Universidade da Beira Interior
e Cadernos do Noroeste, Universidade do Minho, Braga, vol. 8 (1), 1995, pp. 179-186.
(também on-line em Çopytright - pensamento, crítica e criação, Corunha.)
1. Qualquer coisa é dita. E talvez antes de procurarmos dizer o que é que isso, isso que foi dito, quer dizer, ou como, como é que isso foi dito, ou ainda, o que é que foi feito ao dizer isso, quando se disse isso, e na medida em que foi isso, isso, e não outra coisa, que se disse, antes de procurarmos descrever o sentido, o modo e a acção do que foi dito, talvez, antes de tudo disso, seja necessário responder a esta questão: por que é que foi dito isso, isso exactamente, isso e não outra coisa que teria sido, até, possível dizer? Responder à questão: o que é que tornou possível dizer isso? Evidentemente que a resposta a esta última questão não anula todas as outras questões anteriores e, claro, todas as respostas a essas questões. Parece é que todas as questões que se dirigem ao discurso perguntando-lhe sobre o seu sentido, o seu modo e a sua acção tendem normalmente a esquecer esta última questão, como se a possibilidade de falar fosse uma evidência, e como se não acontecesse nada no discurso senão uma ausência, originária ou de superfície, que o trabalho analítico teria de descobrir e colmatar. « Não se pode falar em qualquer época de qualquer coisa; não é fácil dizer qualquer coisa que seja nova » escreve Foucault em L'Archéologie du Savoir, Gallimard, Paris, 1969, p.61. E, da mesma maneira, não se pode vir dizer, vir dizer depois, aquilo que não se disse numa dada época, aquilo que ela poderia ter dito. Não é isso que se diz quando se responde à questão sobre o que é que tornou possível dizer isso.
Isso foi dito, está dito: aconteceu.
2. Qualquer coisa é dita. O que constitui um acontecimento, um
acontecimento discursivo, um acontecimento tão venerável
quanto uma tempestade. Um acontecimento discursivo: qualquer coisa que
se solta do «murmúrio anónimo» - as primeiras
páginas de A
Ordem do Discurso referem-se a esse murmúrio. Dar conta
desse acontecimento, descrevê-lo - descrição que constitui
um polimento, uma talha, uma invenção, do seu «soco»,
da sua «base», diz Deleuze
em Foucault, Minuit, Paris, p.25 -, eis a tarefa da análise
do discurso. Porque, justamente, quer-se dar conta da relação
da linguagem com «outra coisa» - L'Achéologie,
p.117 -, de «uma prática» em que a linguagem se relaciona
com «outra coisa». E aquilo que em Foucault mais está
em causa na noção de discurso é que este é
uma prática - prática de muitas coisas, prática social
também (Vj. o modo como Moisés
Martins mostra as consequências disto mesmo em O Olho de Deus
no Discurso Salazarista, Afrontamento, Porto, 1990, nomeadamente pp.11-34).
O discurso como prática é essa instância da linguagem
em que a língua está relacionada com «outra coisa»,
a qual não é linguística. Donde, a relação
da língua com «outra coisa» que não é
de natureza linguística, relação que se dá
no uso da linguagem, essa relação é o discurso. O
discurso é uma prática que relaciona a língua com
«outra coisa», é aquilo a que Foucault
chama «prática discursiva»: «Não a podemos
confundir com a operação expressiva pela qual um indivíduo
formula uma ideia, um desejo, uma imagem; nem com a actividade racional
que pode ser accionada num sistema de inferência; nem com a "competência"
de um sujeito falante quando constrói frases gramaticais; é
um conjunto de regras anónimas, históricas, sempre determinadas
no tempo e no espaço, que definiram, numa dada época, e para
uma determinada área social, económica, geográfica
ou linguística, as condições de exercício da
função enunciativa.» (L'Archéologie,
pp.147-148) O acontecimento discursivo pressupõe a anterioridade
de um «há linguagem» - « il ya du langage»
(L'Archéologie, p.146) -, a anterioridade do «murmúrio
anónimo». Há o «murmúrio anónimo»
e, de repente, dá-se um acontecimento, qualquer coisa que é
dita. Alguém disse, mas quem? Será que a linguagem começou
nesse "alguém"? Impossível: o murmúrio é anterior.
Ninguém diz nada sem ter ouvido dizer - e sem estar neste ou naquele
lugar, e sem ser, ele próprio, qualquer coisa diferente dele próprio,
muitas coisas diferentes, um «estatuto», uma «posição»,
«vários eus» até. Por conseguinte, o discurso
é um relacionamento complexo e esse relacionamento define as próprias
regras de exercício ou de existência da enunciação
e dos enunciados.
3. A análise enunciativa ou discursiva de Foucault não se vai exercer na forma de uma interpretação, de uma análise do sentido: ela visa descrever aquilo que é efectivamente dito, mas do ponto de vista da sua existência: visa descrever «modalidades de existência», visa definir um conjunto de «condições de existência».E quais as questões que são colocadas ao que é dito, ao que está dito? Temos a resposta que Foucault dá em L'Archéologie, p.143: a análise do discurso « é referente às performances verbais realizadas, visto que as analisa ao nível da sua existência: descrição das coisas ditas, na medida em que, precisamente, elas foram ditas. A análise enunciativa mantém-se fora de qualquer interpretação: às coisas ditas ela não pergunta aquilo que escondem, o que nelas e apesar delas estava dito, o não-dito que recobrem, a abundância de pensamentos, de imagens ou de fantasmas que as habitam; mas pelo contrário, [pergunta] segundo que modo é que elas existem, o que é que é isso de se terem manifestado, de terem deixado marcas e, talvez, de terem ficado ali, para uma eventual reutilização; o que é que é isso de terem sido elas a aparecer - e não outras no seu lugar». E são justamente estas as perguntas que permanecem mesmo que possamos dizer disso, disso que foi dito, que quer dizer aquilo - na verdade, sabemos que « de uma maneira ou de outra, as coisas ditas dizem muito mais do que elas próprias» (L'Archéologie, p.144); e permanecem mesmo que possamos especificar muito bem como é que foi dito, e até as acções feitas ao dizer - sabemos também que «um mesmo conjunto de palavras pode dar lugar a vários sentidos, e a várias
construções possíveis»(Ibidem),
e a várias acções; mesmo assim, todos estes sentidos,
todas estas possibilidades de dizer e de fazer que atravessam as coisas
ditas, tudo isto supõe, já, precisamente, a existência
das coisas ditas - um «dado enunciativo» (L'Archéologie,
p.146), diz Foucault, o qual permanece inalterado, e que é a base
tanto do que é dito quanto dos seus sentidos, dos seus modos de
enunciação, das suas acções.
4. A palavra é dita e é trocada «no interior
de complexos mecanismos de restrição» (A Ordem
do Discurso). Eis a hipótese de partida desta obra: «suponho
que em toda a sociedade a produção do discurso é simultaneamente
controlada, seleccionada, organizada e redistribuída por um certo
número de processos que têm por papel exorcizar-lhe os poderes
e os perigos, refrear-lhe o acontecimento aleatório, esquivar-lhe
a pesada, temível materialidade.» (Ibidem) Ora,
devem-se daqui retirar consequências ao menos para um certo entendimento
da comunicação enquanto interacção por intermédio
de mensagens, visto que esta interacção não será
de maneira nenhuma uma pacificação, um mútuo entendimento
e um exercício livre das competências dos sujeitos. Ela será,
em vez disso, uma luta pela palavra, uma luta com a palavra - e uma restrição
da palavra. A palavra é alvo do exercício de poderes que
a controlam; os poderes não incidem apenas sobre os corpos, mas
também sobre as palavras. E porque sucederá isso? Ao que
parece, pela suspeita de que há na actividade discursiva «poderes
e perigos que imaginamos mal»(Ibidem) - e porque o discurso
é também objecto do desejo, porque «o discurso não
é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação,
mas é aquilo pelo qual e com o qual se luta, é o próprio
poder de que procuramos apoderar-nos.»(Ibidem) E ainda
segundo a hipótese de Foucault, o controlo discursivo, para além
de ser uma luta simultaneamente pelo poder e contra o poder da palavra,
visa também «refrear-lhe o acontecimento aleatório»
(Ibidem) - diante de qualquer discurso proferido, de qualquer coisa
dita, de qualquer coisa escrita, procura-se de imediato localizá-la,
amarrá-la, e isto por intermédio de mecanismos que ligam
aquilo que é transitoriamente dito ou a qualquer coisa já
dita, ou a um sentido não dito mas que esclarece, explica aquilo
que é dito (é este o mecanismo do comentário), ou
a alguém, ou a uma disciplina teórica. Por consequência,
a instância do discurso é-nos apresentada por Foucault, na
Ordem
do Discurso, enquanto resultado de diversos sistemas de controlo da
palavra, resultado das mais diversas práticas restritivas da palavra:
sejam aquelas que limitam o que pode ser dito, o que pode ser dito de verdadeiro,
o que pode ser dito de razoável, operando uma espécie de
bloqueio no «murmúrio anónimo», sejam aqueles
mecanismos que prendem tudo aquilo que aparece na ordem do discurso a um
mesmo - texto primeiro, autor, disciplinas -, sejam aqueles que, pela instituição
de uma cena a repetir, pela constituição de «sociedades
de discurso», pelo funcionamento doutrinal do discurso, pelas apropriações
sociais, limitam os sujeitos falantes. São os três sistemas
de exclusão do discurso: externos ao discurso - o interdito, a partilha
da razão e da loucura e a vontade de verdade; internos ao discurso
- o comentário, o autor, as disciplinas teóricas; exclusão
dos sujeitos falantes - rituais da palavra, sociedades de discurso, doutrinas
e apropriações sociais. Quer dizer: aquilo que é efectivamente
dito não provém de um tesouro infinito de significações,
mas de condições de possibilidade específicas. Por
tudo isto, a análise do discurso procurará, em suma, encontrar
as regras anónimas que definem as condições de existência
dos acontecimentos discursivos: as regularidades dessa dispersão
de acontecimentos (tema do cap.II de L'Archéologie). Porque
a questão não está em saber - e aqui aparece um dos
temas de L'Histoire de la Folie à l'Âge Classique,
Gallimard, 1961 - se, por exemplo, a semelhança que é estabelecida
pelo discurso da psicopatologia do século XIX entre condutas criminosas
e comportamento patológico é ou não justa. Mas está
antes em saber por que é que se tornou possível operar desse
modo, ou « como é que a criminalidade pode tornar-se objecto
de peritagem médica, ou o desvio sexual esboçar-se como um
objecto possível do discurso psiquiátrico.» (L'Archéologie,
p.59 e 65)
5. Finalmente, se o discurso é uma prática social, a prática
do discurso não poderá ser entendida separadamente das práticas
que não são discursivas - mas a relação do
discurso com o que não é discurso é algo que se dá
discursivamente, por conseguinte, é algo que se apresenta no discurso.
E neste sentido, há neste texto a apresentação de
propostas de trabalho, definição de métodos, definição
de conceitos. Mas ele contém, igualmente, no final - naquilo que
é, no entanto, um lugar comum dos discursos de apresentação
- das mais belas e comoventes palavras em louvor de um professor e do seu
trabalho de filósofo, fazendo Foucault coincidir esse trabalho com
o trabalho do pensamento da época no seu confronto com Hegel
- tratava-se daquele que Foucault ia substituir no Colégio de França,
Jean Hyppolite.
FIM